A quantidade de marcas chinesas que desembarcaram no mercado português nos últimos tempos já daria para perder a conta - não fosse o fato de ser nossa obrigação não deixar ninguém para trás. E não deixamos. Para recapitular: BYD, MG, XPeng, Dongfeng, Leapmotor, Aiways, Forthing, Voyah, M-Hero e Maxus*.
Depois de anos e anos falando das mesmas fabricantes - várias delas com mais de 100 anos de história -, de repente a sala ganhou novos “alunos”. Alguns parecem bem promissores, outros ainda estão se ajustando, mas quase todos já chegaram mostrando serviço.
Eu sei: é injusto colocar todas as marcas chinesas no mesmo «saco». Elas não são iguais, não têm o mesmo porte e tampouco ocupam o mesmo posicionamento. Só que esse olhar mais refinado ainda não se consolidou.
Talvez com exceção da BYD (tecnologia) e da MG (preço), as demais ainda não carregam grande significado (ou diferenciação) aos olhos de muitos consumidores. Cada uma vai precisar provar que não é “farinha do mesmo saco”. E é justamente essa diferenciação que pode destravar vendas.
Porque, nesta primeira etapa, a chegada barulhenta de cada nova marca - turbinada pela dicotomia política e econômica China/Ocidente - pode até bastar, mas não sustenta o jogo para sempre. E feitas as contas, as marcas chinesas vendem muito ou vendem pouco?
Estamos diante de “muita parra e pouca uva” ou de “paciência de chinês”? Deixando os provérbios de lado, a ideia aqui é buscar a resposta nos números. Se a gente não “torturar” os dados, eles costumam dizer a verdade e sugerir caminhos. É isso que buscamos na Razão Automóvel.
Marcas chinesas no mercado português: barulho, percepção e diferenciação
Ao longo de muito tempo, o mercado português foi dominado por marcas já conhecidas - e é natural que novos nomes precisem de mais do que exposição para ganhar espaço. O debate nas redes sociais ajuda a amplificar a presença, mas ainda não resolve o essencial: transformar atenção em emplacamentos.
Por isso, o desafio imediato não é apenas “chegar”, e sim explicar com clareza o que cada fabricante entrega - seja em tecnologia, custo-benefício, produto ou rede. Sem isso, a percepção tende a nivelar tudo, como se fosse “farinha do mesmo saco”.
As vendas de carros chineses em Portugal
Como eu disse no começo, estamos na reta final de 2024 e já dá para encarar os números com alguma maturidade.
Quando olharmos para trás, 2024 deve ficar marcado como o ano em que as marcas chinesas chegaram com força a Portugal - mas não como o ano em que elas dispararam na tabela nacional de vendas.
Se isso vai acontecer? Não vou reciclar argumentos. Já registrei minha opinião em outro artigo; aqui, vamos focar no retrato atual.
Com base nos dados divulgados pela ACAP - vendas acumuladas até o fim de outubro -, é preciso descer mais de 20 marcas para encontrar as primeiras chinesas. Especificamente, BYD e MG.
Dá até para dizer que, se comentário em rede social valesse como venda, a posição seria bem mais alta. Mas números, como já observamos, não contam toda a história.
Quando o recorte é 100% elétrico
Se tirarmos da conta os carros com motor a combustão e olharmos apenas para os 100% elétricos, o cenário muda: por exemplo, a BYD aparece no TOP 5. E, se o futuro do automóvel for 100% elétrico - não estou defendendo que seja -, isso sinaliza bem o potencial de penetração das marcas chinesas.
Encontrar paralelo noutros mercados
É tentador comparar com a Espanha, sem dúvida. Só que o comportamento daquele mercado é bem diferente do português, da tributação às preferências dos consumidores.
Por lá, encontramos a MG de «pedra e cal» no Top 15 e outra marca chinesa subindo rápido: a Omoda.
Temos um artigo mais profundo sobre a sua ascensão nesta ligação:
Europa: participação total vs elétricos
Ampliando o zoom para a Europa, ao analisar o mercado no conjunto, em 2023 as marcas chinesas representavam aproximadamente 2,5% do total.
Mais uma vez, quando o detalhamento foca apenas nos elétricos, a participação cresce: no segundo trimestre de 2024 (abril-junho), a quota de mercado dos veículos elétricos chineses na Europa chegou a 14,1%.
Qualquer que seja o ângulo, existe uma tendência clara de alta - ainda mais forte quando falamos de veículos 100% elétricos. Foi esse número que levou a UE a avançar com as conhecidas tarifas sobre carros elétricos produzidos na China.
Se elas vão dominar o mercado? Talvez essa nem seja a principal preocupação das marcas ocidentais (pelo menos por enquanto…).
No momento, a inquietação é outra: as vendas não estão crescendo, então o avanço das marcas chinesas ocorre às custas da participação de fabricantes já estabelecidas. A nível mundial, o cenário em 2023 foi este:
Estamos, portanto, vendo um período de acomodação no setor automotivo. Se a história terminar bem, deve acontecer o que já se viu antes - primeiro com as marcas japonesas e depois com as coreanas. Elas chegam, se ajustam, começam a produzir na Europa e o mercado encontra um novo equilíbrio. Os chineses têm tempo e a Europa não tem outra hipótese.
Assim que tivermos os números finais do mercado automotivo em 2024 - tanto de Portugal quanto da Europa - voltaremos a este assunto. Eu sempre gosto de observar como as minhas previsões dão errado.
Antecipando algum comentário, não me esqueci da KGM. Simplesmente porque a KGM não é chinesa, é sul-coreana. É uma marca conterrânea da Hyundai e, sobretudo da Kia, com quem partilha o importador em Portugal, a Astara.
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