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O raríssimo Citroën AX Turbo de 173 cv e 800 kg

Carro branco Citroën AX Turbo exposto em showroom moderno com piso refletivo e detalhes de vidro.

A internet está lotada de achados curiosos esperando alguém tropeçar neles - e a gente adora uma boa arqueologia digital. Em uma dessas explorações pelos cantos mais escondidos da web, esbarramos no Citroën AX Turbo. Uma raridade absurda, daquelas que merecem estourar uma garrafa de champanhe.

E convenhamos: só de colocar “Citroën AX” e “turbo” na mesma frase já dá um frio na barriga, né? Então respire fundo, porque esta configuração entregava 173 cv e pesava apenas 800 kg. Esses são os números “pesados”.

Só que o charme deste carro está na maldade dos detalhes. Para começar, no espaço onde deveria ficar o rádio… não havia rádio. No lugar, instalaram um botão para subir e baixar a pressão do turbo.

Quem foi o irresponsável?

Os responsáveis - ou os “irresponsáveis”… - por essa ideia foram os engenheiros da Danielson Engineering, uma preparadora que, nos anos 80 e 90, trabalhava bem próxima do Groupe PSA. O pessoal do Caridisiac foi além e chamou a Danielson de “AMG francesa”. Dá pra guardar essa no ouvido.

Voltando ao pequeno esportivo francês, é justo apontar um nome: o projeto do Citroën AX Turbo da Danielson foi conduzido por Joseph Le Bris, um dos gênios que decidiu que o que faltava mesmo(!) a esse foguete de bolso era um turbo - e, sinceramente, ele tinha lá seus motivos.

E não, não foi só capricho de colocar um turbo debaixo do capô do Citroën AX GTI. Motivo sempre existe, mas havia um ainda mais forte: começa com compe e termina com tição. Isso mesmo… corrida!

Vamos fazer corridas

A premissa do Citroën AX Turbo era uma só: ganhar corridas. Não estou falando daquelas disputas que rolavam no “Autódromo” Vasco da Gama - vocês sabem muito bem do que estou falando… - onde, há alguns anos, até seria relativamente comum topar com compactos franceses com “caracóis” sob o capô.

Estou falando de competição de verdade, com curvas, frenagens… enfim, desafios que não se resolvem só numa reta. A proposta era criar um modelo inspirado no AX GTI, só que com potência extra para competir no Grupo N.

No Grupo A, ele perdia a vantagem do peso. Já no Grupo N (mesmo sendo penalizado pelo turbo), podia correr com os 800 kg do carro de série. Era a receita ideal para essa categoria: leve, relativamente barato de comprar e, graças ao turbo, capaz de brigar lá na frente.

Só que as regras do Grupo N exigiam a produção e comercialização de 2500 unidades do Citroën AX Turbo para homologação. E a diretoria da Citroën ficou com medo de tocar o projeto adiante.

Havia motivo para temer o Citroën AX Turbo?

Eu adoraria ter assistido à reunião em que a Danielson Engineering tentou “vender” a ideia do AX Turbo para a administração da marca francesa. Se dependesse de mim, ninguém saía de lá sem aprovar o AX Turbo.

Dá até para imaginar os argumentos do pessoal da Citroën: “Ah e tal é muita potência para um Citroën AX”. Quem aprovou o Volkswagen Polo G40 ou o Fiat Uno Turbo i.e. provavelmente discorda.

E estamos falando da Danielson Engineering - eles nunca parariam “só” no turbo. Basta olhar as imagens para perceber que o trabalho no AX Turbo não se limitou a aumentar potência.

Talvez aí esteja uma das razões que “enterrou” o projeto. Estima-se que um Citroën AX Turbo como este, em 1991, custasse perto de 200 mil francos; corrigindo pela inflação, isso daria algo como 48 mil euros. É muito dinheiro. Mas, como veremos mais adiante, ainda era barato perto de certa “concorrência” que aparecia na época.

O que mudou para aguentar o turbo

Para começo de conversa, as rodas eram maiores e exclusivas desta versão Turbo. O diâmetro extra permitiu aumentar a medida dos pneus, garantindo mais tração nas arrancadas e mais aderência nas curvas.

A calibração das suspensões também foi retrabalhada, assim como a altura do solo - embora as rodas maiores tenham anulado essa redução. E, por fim, no eixo traseiro, entram discos de freio no lugar dos tambores.

E pode acreditar: parar esse demônio era essencial. Com o turbo na pressão máxima - já chegamos no botão mágico que substituiu o rádio… - eram 173 cv e mais de 200 Nm de torque máximo.

Quase números de supercarro

O AX Turbo entregava números impressionantes onde importava: na estrada. Nos primeiros 1000 metros, fazia apenas 26,3s. É um número ridículo! A Ferrari F40 marcava 21,8 segundos, o Porsche 959 fazia 24 segundos e o Lancia Delta Integrale Evoluzione ficava em 27 segundos.

Quer humilhar um BMW M3 E30? Dá também. O M3 fazia só mais 0,2 segundos do que o AX nos primeiros 1000 metros - ou seja, daria para ir olhando para o lado e ver a frustração do motorista do BMW enquanto você ria da cara dele. Cada vez gosto mais do AX Turbo…

Mas falando sério: 173 cv era potência demais. A própria Danielson sabia disso. Quem guiava o AX Turbo dizia que o eixo dianteiro sofria para lidar com tanta força no uso do dia a dia. A solução foi colocar um botão mágico no painel, exatamente no espaço que seria do rádio.

Com um toque, você tinha dois modos: com 0,55 bar de pressão, liberava 137 cv; com 1,0 bar, vinha o inferno - os tais 173 cv. Vale conferir a ficha técnica completa.

Especificações Técnicas:

  • Potência (0,55 bar / 1,0 bar): 137 cv / 173 cv
  • Torque máximo: 168 Nm às 5000 rpm / 206 nm às 4500 rpm
  • Cilindrada: 1360 cm³
  • Taxa de compressão: 8,2
  • Turbo: Garrett T025 com intercooler ar-ar
  • Suspensões: Amortecedores e molas especiais
  • Pneus: Michelin 185/55 R15

Performance:

  • Velocidade máxima: 192 km/h (137 cv) / 225 km/h (173 cv)
  • Aceleração (0-1000 m): 27,7s (137 cv) / 26,3s (173 cv)

E ainda tem mais: o cabeçote do motor recebeu um leve trabalho. Enfim, aqueles ajustes pequenos que acabam pesando muito no resultado final.

Afinal, quantos existem?

Infelizmente, menos do que a gente gostaria. Pelo que conseguimos levantar, a Danielson produziu duas unidades e ofereceu esse projeto como um kit de conversão para quem já tivesse um Citroën AX GTI na garagem.

É triste ver um projeto tão promissor terminar assim. Porque não é só “um carrinho engraçado com turbo”. É mais do que isso: é um pacote completo, pensado desde o início com objetivo esportivo.

Hoje, a Danielson Engineering continua existindo - e, na verdade, nunca foi tão grande. Eles têm laboratórios próprios e desenvolvem soluções de engenharia avançadas para a indústria automotiva, naval e também para a aviação.

Mas, para mim, o Citroën AX Turbo é - e vai continuar sendo - o projeto mais espetacular de todos. Como vocês sabem, tenho uma queda por esse francês há mais de 20 anos.

E se a gente começasse a fazer conteúdos assim para o nosso canal no YouTube, vocês se inscreviam?

Fontes: Gazoline, Caridisiac, Auto News Info


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