Num país em que muita gente ainda vive “agarrada ao volante” e onde, em várias cidades, o carro segue como a escolha mais comum para os deslocamentos do dia a dia, a transformação tende a funcionar melhor quando começa pelas novas gerações. É nesse cenário que o projeto Comboio de Bicicletas, promovido pela Câmara Municipal de Lisboa (CML) e gerido pela cooperativa sem fins lucrativos Bicicultura, vem reunindo cada vez mais crianças - pedalada após pedalada.
Uma vez por semana, alunos da educação infantil ao ensino básico fazem de bicicleta o trajeto entre casa e a escola, seguindo em grupo e guiados por um ou mais “maquinistas”, responsáveis por zelar pela segurança ao longo do caminho.
“O objetivo é contagiar bons hábitos de mobilidade ativa na família”, resume Nádia Morais, responsável pela comunicação da Bicicultura e também monitora. Ao longo de quatro anos, os “comboios de bicicletas” ampliaram distância percorrida, pontos de parada e número de participantes - e, nesse meio-tempo, chegaram a outras cidades.
Em Lisboa, o programa começou no ano letivo de 2020-2021, com 11 escolas incluídas e a participação de menos de duas centenas de crianças em 18 percursos. Em cinco anos, os dados evoluíram para 36 estabelecimentos de ensino, 543 inscritos (sendo 300 participantes regulares) e 27 percursos. A meta, segundo Nádia, é alcançar 35.
De iniciativa de pais a programa municipal
Na última quarta-feira, Nádia foi uma das adultas encarregadas de acompanhar o trajeto CB13, que sai às 8h30 da Alta de Lisboa e faz paradas nas Escolas Básicas de Telheiras e São Vicente. Ela reforça que, além do entusiasmo das crianças, o projeto depende muito do envolvimento dos pais - e foi justamente por iniciativa de um deles que tudo começou, em 2015.
João Bernardino, na época pai de um aluno de 5 anos da EB do Parque das Nações, juntou-se a outros responsáveis para organizar um percurso de bicicleta até a escola, feito em grupo. O nome escolhido foi CicloExpresso do Oriente, e a primeira viagem ocorreu em 25 de maio de 2015. Nesse dia inicial, seguiram 12 crianças, acompanhadas por pais, voluntários e membros da Junta de Freguesia, garantindo que, a partir dali, todas as sextas-feiras o “comboio” saísse.
Dois anos depois, apareceu outro CicloExpresso - o de Barrocas, em Aveiro - também conduzido por pais. Com essas experiências como referência, a CML apoiou o projeto-piloto Comboios de Bicicletas em 2019 e, um ano depois, criou o programa municipal, colocado em prática pela cooperativa Bicicultura.
O passageiro que já é maquinista
“Este ano, o filho do João Bernardino (Manuel), que participava no comboio de bicicletas em 2015, terminou a formação de maquinista (os nossos monitores) e já acompanha um comboio de bicicletas”, conta Nádia, destacando o caráter singular da iniciativa.
“É um caso único (ou era, pelo menos) um programa financiado pelo município que abrange escolas públicas, mas também privadas, e em que os recursos humanos são todos remunerados, ao invés de outros programas do género, que dependem de voluntariado. Há uma equipa que trabalha a tempo inteiro na organização e cerca de 50 ‘maquinistas’ em regime de prestação de serviços. Este programa influenciou a criação de outros, tanto pela Bicicultura (Almada, Leiria, Loures, Palmela, Oeiras, Amadora, Matosinhos, Mafra, Braga, ilha Graciosa) como por outras organizações (Aveiro, Condeixa-a-Nova, Porto, entre outros)”, descreve.
E, nesta semana, Lisboa acabou escolhida para a quarta edição do Bike Bus Summit. Durante dois dias, famílias, educadores, ativistas, pesquisadores e decisores políticos compartilharam ideias sobre caminhos para promover e ampliar esse movimento de grupos organizados de crianças que vão de bicicleta para a escola, acompanhadas por monitores habilitados.
Como funciona o Comboio de Bicicletas em Lisboa
Na capital, pais interessados precisam se inscrever e, depois disso, são contatados para formalizar a entrada no programa e o encaixe em um trajeto específico, conforme o código postal. Como define Nádia, “o percurso é que se adapta às inscrições, e não o contrário”.
A partir daí, cada linha conta com um grupo dedicado no WhatsApp: por ali, os participantes confirmam presença na véspera e compartilham a localização em tempo real.
A participação é limitada somente pela capacidade de pedalar de forma autônoma. Neste ano letivo, o participante mais novo tem 4 anos. “A nossa ideia inicial até era dirigir o programa para os mais velhos, mas percebemos que a idade ideal começa antes, entre o pré-escolar e o 1º ciclo. A partir dos 10, as crianças já começam a resistir à ida em grupo e com os coletes a identificar”, explica.
Ainda assim, como a proposta é “capacitar as crianças para o uso utilitário e autónomo da bicicleta em contexto citadino”, quando o costume se consolida, a missão também se cumpre.
Apesar de a bicicleta - e até o transporte público, de modo geral - ainda aparecer de forma minoritária nas idas de casa para a escola, Nádia avalia que existe hoje mais abertura por parte dos pais para a bicicleta, e que o cenário mudou bastante em relação a dez anos atrás, embora medos e mitos persistam.
“Há uma ilusão de que a cidade tem muitos declives e que é difícil chegar aos sítios. Mas são muito poucas essas situações. Talvez nas escolas na zona do Castelo. Mas ainda há duas semanas inaugurámos um percurso no Chiado e Bairro Alto.” E não é a distância que desanima as crianças que, bem cedo, se colocam em movimento. O trajeto mais longo soma 5,5 km, feito sem qualquer ajuda de baterias: “As crianças têm muita energia nestas idades”, confirma.
Segundo o último inquérito promovido pela CML sobre mobilidade no trajeto casa-escola, 44% dos alunos do básico e do secundário - em redes pública e privada - afirmaram ir normalmente de carro. Esse percentual não só não caiu em comparação com o primeiro inquérito, de 2018, como ainda subiu 1 ponto percentual. Apenas um em cada quatro vai a pé, e 1,5% utiliza bicicleta ou patinete. Em 2018, essa última forma de deslocamento tinha sido apontada por apenas 0,8% dos respondentes.
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