O Mercedes-Benz CLA 250+ encara rodovias sem medo graças a um “truque” que faz diferença.
“Começar com o pé esquerdo”. Foi exatamente assim que este teste com o Mercedes-Benz CLA 250+ começou. A chuva estava forte, eu cheguei a tomar uma boa molhada antes de entrar no carro e, para piorar, não encontrava um ajuste de direção realmente confortável. Para ser sincero, eu é que não estava muito bem.
Como se não bastasse, o novo sistema operacional da marca de Stuttgart - o MB.OS - teimava em não exibir o mapa da navegação e também não queria parear com o meu celular. Coisas dos tempos modernos…
E ainda teve mais: a cabine me pareceu mais apertada do que eu imaginava, mesmo sabendo que existe uma bateria grande sob o assoalho e que as linhas da carroceria do CLA não fazem milagres quando o assunto é espaço interno.
Por outro lado, a postura em estrada compensa bastante. Nesta galeria de imagens dá para entender o porquê:
Quando cheguei ao primeiro destino, admito que a motivação não era muita. Mas algo ali não fazia sentido.
O Diogo Teixeira já tinha visto o carro na fábrica de Sindelfingen e acompanhou a apresentação internacional em Roma, no começo da primavera. Em junho, voltou a guiá-lo em um primeiro contato dinâmico e, como dá para ver no vídeo, as impressões foram, em grande parte, bem positivas.
Por isso, antes de sair para o segundo deslocamento com o CLA 250+, fiz questão de chegar mais cedo. Eu queria observar o interior com calma, sem pressa por causa da chuva e sem a pressão de estar atrasado para algum compromisso - e estar com os pés secos também ajudou.
A gente acabou fazendo as pazes. E eu encontrei um 100% elétrico à altura do que se espera de um Mercedes-Benz: estar entre os melhores do segmento. E, em alguns pontos, ele realmente está no topo.
Nascido em uma era 100% digital
O MB.OS, de fato, não estava colaborando - mas uma pequena mudança virou o jogo. Ou quase. Nas configurações do sistema e com a ajuda do app da Mercedes-Benz, vinculei esta unidade à minha conta de usuário, como se eu fosse o proprietário do carro. Foi exatamente aí que o CLA pareceu ganhar “vida”.
A navegação passou a aparecer no display central, o Apple CarPlay ficou praticamente imediato e, a cada vez que eu entrava no CLA, uma voz personalizada me recebia. Não é esse tipo de mimo que faz a gente escolher um carro premium?
Nem tudo é tão bom: usar o computador de bordo ainda depende de alguns comandos táteis no volante. Isso deve ser corrigido em breve, com um novo volante com botões físicos. Menos bonito? Talvez. Mais prático? Sem a menor dúvida.
Entre as novidades, dá para criticar os comandos dos vidros elétricos, que adotaram a mesma solução da Volkswagen: apenas dois botões e um seletor para alternar entre os vidros dianteiros e os traseiros.
Em contrapartida, o botão para ligar e desligar o sistema elétrico - ou a ignição, se fosse um carro a combustão - foi colocado de forma engenhosa na ponta da haste do câmbio. É um detalhe simples, mas muito bem pensado.
As telas (a central multimídia sensível ao toque e a do painel de instrumentos) têm alta resolução, e as várias páginas e menus ficam mais fáceis de usar conforme a familiaridade com o sistema aumenta.
No meio do “sanduíche”
O Mercedes-Benz CLA 250+ tem perfil baixo, como se espera de um cupê. Ao mesmo tempo, é longo e largo, como a gente associa a um sedã familiar. Não entrega o espaço de um SUV, mas também ninguém compra um CLA esperando isso.
Na prática, quem mede 1,85 m (ou mais, como é o meu caso) vai sentir que o teto poderia estar um pouco mais alto.
No meu caso, a solução foi baixar levemente a inclinação do encosto e compensar com um novo ajuste longitudinal do banco e da coluna de direção, para ganhar alguns centímetros.
No banco traseiro, porém, não existe a mesma margem de regulagem. O espaço é bom em todas as medidas, exceto na altura. Para os mais altos, isso incomoda; para o restante, vira um “não-problema”.
Para bagagens, são 405 litros disponíveis no porta-malas - de novo, com abertura mais baixa - e 101 litros na frente, no frunk. Ainda assim, por ser um compartimento que não dá acesso a um motor a combustão e sim a um porta-objetos, a abertura e o fechamento poderiam ser mais simples e confortáveis.
CLA 250+ é a escolha racional
Dentro da linha, a versão 250+ é claramente a opção mais racional. Ela fica no meio das três versões disponíveis e combina a bateria de maior capacidade (85 kWh) com um único motor elétrico de 200 kW (272 cv), instalado no eixo traseiro.
Nos números declarados pela marca, a velocidade máxima é limitada eletronicamente a 210 km/h e o 0 a 100 km/h acontece em 6,7s - embora, na prática, pareça ainda mais rápido.
Existe, porém, um ponto que separa este CLA da maioria dos elétricos: a transmissão de duas marchas, como no Audi e-tron GT ou no Porsche Taycan. Como veremos mais adiante, esse é um “truque” que muda tudo quando o assunto é consumo. O Mercedes CLA 250+ está entre os elétricos mais eficientes que já testamos na Razão Automóvel.
A primeira relação é usada principalmente na cidade; a segunda entra para reduzir o consumo na rodovia, compensando a natural “alergia” dos veículos elétricos a velocidades mais altas e aos momentos mais raros de regeneração de energia.
Se você já está pensando que elétrico não serve para viagem, vale lembrar: a Mercedes-Benz declara autonomia de até 790 km em percurso misto, ou de até 920 km em ciclo urbano.
Se é assim na vida real? Não. Mas também não está muito longe disso. E ainda existe a vantagem de recarregar com potência máxima (DC) de 320 kW.
Combinação de eficiência e desempenho
Durante o teste, registrei média de 14,5 kWh/100 km em um trajeto misto. É um número acima dos 12,2 kWh/100 km anunciados para a versão com rodas de 17” e dos 13,2 kWh/100 km da configuração com rodas de 19”, como a do carro avaliado.
A “culpa” é dividida. Primeiro, porque a eficiência dinâmica do Mercedes-Benz CLA convida a andar em um ritmo menos contido. A direção é precisa e a suspensão garante boa estabilidade, tanto na rodovia quanto em trechos mais sinuosos.
Depois, porque os sons sintetizados - aqueles que as marcas colocam nos elétricos que já não fazem barulho e que, literalmente, eu prefiro não ouvir - no CLA foram, talvez, os primeiros de que eu realmente gostei. O modo “Roaring Pulse” é difícil de colocar em palavras.
Eu o imagino como um tipo de dragão resfriado gargarejando de manhã, misturado com um rugido de leão. É obviamente artificial, mas é divertido (e passa sensação de força) o bastante para eu não querer desligar.
Números que já fazem pensar
O preço-base do Mercedes-Benz CLA 250+ que testei é de 55 500 euros e já vem com uma boa quantidade de equipamentos de série. Não faltam teto panorâmico nem a câmera para “selfies” integrada no painel. Ainda assim, com rodas de 17” e sem alguns componentes mais chamativos, o CLA não deixa de parecer um pouco “pelado”.
Para deixá-lo mais interessante, já é preciso partir para opcionais com a sigla AMG e nomes como Burmester, além de muitos extras digitais, diversos “packs” e outras tantas opções cujo nome termina em “plus”. O resultado - como no caso da unidade testada - é chegar a 68 600 euros. E, aí, a palavra “absurdo” não sai da minha cabeça.
Posso até ter começado o teste “com o pé esquerdo”, mas como o CLA 250+ é elétrico, também não preciso dele muitas vezes. E, na hora de devolver a chave, confesso que deu até um pouco de pena. Em compensação, fiquei bem curioso para conhecer a nova CLA Shooting Brake.
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