O confronto no Irã e o bloqueio subsequente do Estreito de Ormuz empurraram o valor do barril para cima ao longo de toda a semana, e isso já aparece no preço dos combustíveis. Ainda assim, esse motivo, sozinho, não explica a diferença entre a variação projetada do diesel e a da gasolina: mais 23 centavos por litro contra “apenas” sete centavos por litro, respectivamente.
Então, de onde vem essa discrepância? A explicação não está somente no Oriente Médio. Ela está em escolhas europeias acumuladas por décadas, que foram reduzindo, pouco a pouco, a capacidade do continente de produzir o próprio combustível. O evento atual foi o estopim externo; a raiz do problema é estrutural.
Refino na Europa e o diesel: um continente que deixou de investir
Há décadas, a capacidade de refinação na Europa permanece travada e, além disso, ficou tecnicamente menos adequada para lidar com petróleos cada vez mais pesados e com maior teor de enxofre.
Na prática, o setor quase parou de colocar dinheiro novo: há mais de 30 anos não se constroem refinarias no continente e, desde 2009, fecharam perto de 30 unidades. Parte das que continuam operando está sendo convertida em biorrefinarias, com foco em combustíveis sustentáveis para aviação e hidrogênio, como forma de manter a viabilidade econômica das instalações.
A esse quadro somou-se uma pressão política crescente, decorrente de decisões orientadas à neutralidade carbônica. Na ponta, isso significou empurrar os combustíveis líquidos para a margem - com a ambição de que, no transporte rodoviário, venham a ter literalmente um papel nulo no futuro.
Essa postura também desestimula o investimento na produção de combustíveis: o Banco Europeu de Investimento (BEI) deixou de financiar a maioria dos projetos de combustíveis fósseis, incluindo a refinação tradicional, desde o fim de 2021. Sem crédito público e sob maior pressão regulatória, o capital privado também se afastou do setor.
O efeito prático é que refinarias europeias - hoje competitivas e entre as mais responsáveis do mundo em termos ambientais - podem acabar fechando antes da hora, sem tempo para descarbonizar ou para se transformar em unidades voltadas à produção de combustíveis renováveis de baixo carbono.
Dependência da Rússia e o choque de 2022
Enquanto a refinação europeia perdia fôlego, crescia a dependência de diesel já refinado vindo de fora. Por muito tempo, esse abastecimento se dividia quase meio a meio entre Rússia e Oriente Médio. Num cenário de estabilidade geopolítica, o arranjo parecia confortável; quando a estabilidade falhasse, ele mostraria o quanto era frágil.
Foi exatamente o que ocorreu em fevereiro de 2022, com a invasão russa da Ucrânia. Por decisão própria ou por força de sanções, as compras da Rússia foram interrompidas. De uma hora para outra, a Europa precisou buscar outros fornecedores para os volumes gigantescos que vinham do país - tanto diesel refinado quanto petróleo bruto destinado às refinarias europeias.
Desde então, a participação do Oriente Médio aumentou, embora a Europa também tenha tentado diversificar (EUA, Índia, etc.), ainda que hoje esses novos fluxos não tenham o mesmo peso. A logística de abastecimento também mudou: do oleoduto para o transporte marítimo. Essa alternativa não é só mais cara; ela é, por natureza, mais sujeita a crises como a atual, elevando a vulnerabilidade do sistema.
O gatilho atual: o Oriente Médio também falhou
É justamente essa vulnerabilidade que agora se concretizou. O fechamento do Estreito de Ormuz à navegação - uma das principais artérias do comércio global de petróleo e derivados, responsável por cerca de 20% do tráfego mundial de crude - interrompeu de forma abrupta os fluxos de diesel refinado dos quais a Europa passou a depender depois de 2022.
O impacto apareceu imediatamente nas cotações internacionais. O diesel refinado disparou muito mais do que o próprio petróleo bruto (três vezes mais), porque o problema não é falta de crude. O que se paga, neste momento, é a escassez do produto já processado e o risco de não conseguir levá-lo até a Europa.
Já a gasolina segue uma dinâmica diferente. A Europa é relativamente menos dependente dessa rota para se abastecer de gasolina, e sua base interna de produção ainda consegue atender à demanda com mais autonomia. Daí a diferença de alta entre os dois combustíveis.
E agora?
Nenhuma medida de curtíssimo prazo resolve o núcleo da questão: a Europa montou uma dependência de diesel refinado do outro lado do mundo, enfraqueceu a capacidade de produzir em casa e, num planeta cada vez mais volátil, percebe que essa conta tem custo.
E esse custo, no fim, sempre aparece no mesmo lugar: no posto, pago litro a litro por todos nós.
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