Na entrevista desta sexta-feira à RMC-BFMTV, Michel-Édouard Leclerc, presidente do grupo E.Leclerc, alternou mensagens de alívio e de preocupação ao falar sobre os preços dos combustíveis. Ele afirmou esperar uma queda em breve, na faixa de 10 a 15 centavos por litro, mas se mostrou bem mais cauteloso quanto à possibilidade de os valores voltarem ao patamar anterior à crise. Como outros analistas, ele mantém o olhar preso aos desdobramentos da guerra no Irã: teme que o Oriente Médio volte a se incendiar e que as negociações em curso no Paquistão não resultem em nada concreto.
Queda prometida de 10 a 15 centavos no litro nas bombas
Ainda assim, ele cravou ao microfone da RMC-BFMTV: “Deve baixar.” Para sustentar a previsão, citou dois pontos técnicos considerados plausíveis.
Por que a redução leva alguns dias
O primeiro é de ordem regulatória: a legislação francesa proíbe vender combustível com prejuízo. Enquanto os tanques estiverem cheios de produto comprado a um preço elevado, os postos não conseguem repassar integralmente, de imediato, a queda do petróleo bruto.
O segundo é logístico: é preciso entre três e cinco dias para que o petróleo negociado a uma cotação mais baixa chegue fisicamente aos postos na França. Por isso, segundo ele, a diminuição provável ficaria entre 10 e 15 centavos por litro. Mesmo assim, pondera: “Hoje de manhã, a gente pode estar nessa ordem, desde que à tarde não volte a disparar.”
“O interesse da guerra é o petróleo”
Quando o assunto passa a ser um eventual retorno aos preços de antes da crise, Michel-Édouard Leclerc se mostra menos otimista. “Eu não estou sentindo isso”, disse, antes de acrescentar:
O interesse de quem fez essa guerra é que a gente não volte ao nível de antes. O interesse da guerra hoje, para muitos oligarcas, é o petróleo.
A fala é um ataque direto às grandes petrolíferas e a Estados que se beneficiam da instabilidade no Oriente Médio - e que, portanto, não teriam motivos para desejar uma descompressão. Ainda assim, é preciso lembrar que o grupo Leclerc também acaba se beneficiando do cenário.
Altas históricas registradas em 26 de março
Levantamentos de 26 de março apontavam aumentos históricos nos preços dos combustíveis. No diesel, as redes de varejo alimentar exibiram as altas mais fortes. Em Auchan e Leclerc, o diesel subiu 0,58 € por litro. No Système U, o teto foi de +0,57 €. O Carrefour ficou ligeiramente abaixo, com aumento de 0,56 € por litro.
Na gasolina, os números foram apenas um pouco menos expressivos. Système U e Leclerc lideraram com alta de 0,32 € por litro, seguidos por Auchan (+0,30 €) e por um bloco apertado entre +0,27 € e +0,29 €.
Diante desses dados, uma queda de 15 centavos no diesel equivale a apenas um quarto do aumento suportado pelos motoristas nos próprios postos da rede. Na gasolina, a recuperação seria pouco mais que a metade. Ou seja: por mais bem-vinda que seja a promessa, ela não “zera” o que já subiu.
O que Michel-Édouard Leclerc não diz
A entrevista desta sexta-feira também chama atenção pelo que deixa de lado. Em nenhum momento Michel-Édouard Leclerc entra na composição efetiva do preço na bomba (cotação do petróleo bruto, custo de refino, margens de distribuição e impostos). Porém, como lembrou Francis Pousse, presidente de postos de combustíveis e energias novas na Mobilians, o preço do combustível na França não acompanha de forma automática o Brent.
Quem dá o tom do custo do produto acabado é o Platts gasóleo, índice de referência do mercado atacadista cotado em Roterdã - e ele indica um movimento diferente.
Depois de cair 300 dólares por tonelada em dois dias, na esteira do cessar-fogo no Irã em 8 de abril, o índice já recuperou 100 dólares. Em outras palavras, a queda do bruto chega apenas em parte - e com atraso - ao preço real do diesel e da gasolina.
Olivier Gantois, presidente da União Francesa das Indústrias Petrolíferas (Ufip), já havia apontado, ainda em 8 de abril, uma faixa mais contida: de 5 a 10 centavos, que ele considerava viável “muito rapidamente”. Três dias depois, as primeiras quedas observadas nesta sexta-feira apareceram apenas em postos de alto volume. Os demais devem esperar até domingo ou segunda-feira.
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