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Curiosity quebra rocha em Marte e revela enxofre puro no canal Gediz Vallis

Rover explorando terreno vermelho e analisando uma rocha quebrada em ambiente marciano árido e montanhoso.

Uma rocha em Marte liberou um tesouro amarelo inesperado quando o rover Curiosity, por acaso, rompeu sua crosta aparentemente comum.

Em maio do ano passado, ao passar com seus 899 quilogramas (1.982 libras) sobre um nódulo mineral frágil, o veículo acabou quebrando o depósito - e o interior revelou cristais amarelos de enxofre elementar, conhecido como “enxofre nativo”.

Embora sulfatos sejam relativamente frequentes em Marte, esta foi a primeira vez que se identificou enxofre em sua forma pura e elementar no planeta vermelho.

Enxofre puro no canal Gediz Vallis: uma descoberta ao acaso

O mais empolgante é que o canal Gediz Vallis, onde o Curiosity encontrou a rocha, está cheio de objetos muito parecidos com o fragmento de enxofre antes de ser esmagado. Isso sugere que, de alguma forma, o enxofre elementar pode existir ali em abundância - ao menos em certas áreas.

Assista ao vídeo abaixo para um resumo:

"Encontrar um campo de pedras feitas de enxofre puro é como encontrar um oásis no deserto", disse em julho de 2024 o cientista do projeto Curiosity, Ashwin Vasavada, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA.

"Ele não deveria estar lá, então agora precisamos explicar isso. Descobrir coisas estranhas e inesperadas é o que torna a exploração planetária tão empolgante."

O que os sulfatos contam e por que o enxofre elementar surpreende

Sulfatos são sais formados quando o enxofre - geralmente presente em compostos - se mistura a outros minerais na presença de água.

Quando essa água evapora, os minerais se combinam e secam, e os sulfatos ficam como resíduo.

Esses minerais sulfatados ajudam a revelar bastante sobre Marte, incluindo seu histórico de água e como o planeta se alterou ao longo do tempo.

Já o enxofre puro, por sua vez, só se forma dentro de um conjunto bem restrito de condições - condições que, até onde se sabe, não teriam ocorrido na região marciana em que o Curiosity fez essa descoberta.

Há muito do passado geológico de Marte que ainda desconhecemos. Por isso, encontrar grandes quantidades de enxofre puro simplesmente expostas na superfície marciana indica que pode existir algum processo importante ali que ainda não foi reconhecido.

Por que isso importa (e o que ainda não diz sobre vida em Marte)

Vale lembrar que o enxofre é um elemento essencial para toda a vida. Em geral, os organismos o assimilam na forma de sulfatos, que são usados para produzir dois aminoácidos essenciais de que os seres vivos precisam para fabricar proteínas.

Como já se conhece a presença de sulfatos em Marte há algum tempo, essa identificação não muda nada especificamente nesse ponto. De qualquer forma, ainda não há sinais definitivos de vida em Marte.

Mesmo assim, os dados continuam mostrando vestígios de componentes que organismos vivos achariam úteis - como química favorável, água e evidências de condições habitáveis no passado.

Limitados à Terra, também temos restrições óbvias sobre como acessar Marte.

Os instrumentos do Curiosity conseguiram analisar e identificar as rochas ricas em enxofre no canal Gediz Vallis. Porém, se o rover não tivesse seguido um trajeto que o levou a passar por cima de uma delas e abri-la, talvez o enxofre demorasse mais tempo para ser encontrado.

O próximo passo é entender, com base no que já sabemos sobre Marte, de que maneira esse enxofre pode ter ido parar ali.

Para isso, será necessário mais trabalho - possivelmente com modelagens detalhadas da evolução geológica marciana.

Enquanto isso, o Curiosity seguirá reunindo dados sobre o mesmo tema.

Curiosity e Perseverance seguem em frente: mais surpresas a caminho

O canal Gediz Vallis é uma área carregada de história marciana: um antigo curso d’água, cujas rochas hoje guardam marcas do rio que passou por ali bilhões de anos atrás.

O Curiosity continua avançando ao longo do canal, para descobrir que outras surpresas podem aparecer logo depois da próxima pedra.

É possível acompanhar as aventuras do Curiosity no blog de atualizações científicas do rover.

E, mais de cinco anos dentro da própria missão, o rover marciano Perseverance, da NASA, também segue atravessando a superfície do planeta vermelho, fazendo o que qualquer criança de cinco anos adoraria fazer - parando para observar cada rocha no caminho.

Uma de suas descobertas mais recentes parece estranhamente fora de contexto, o que levou cientistas a questionarem se ela talvez nem tenha vindo de Marte.

Em 19 de junho deste ano, o explorador de seis rodas estabeleceu um novo recorde, ao completar oficialmente a viagem mais longa já feita por um veículo robótico em outro planeta.

Em um único deslocamento, o rover percorreu 411 metros da superfície rochosa de Marte. Pode não parecer muito, mas, em comparação com Curiosity e Opportunity - que avançam em um ritmo relativamente lento - o Percy é um verdadeiro velocista.

Os robôs em Marte são mesmo uma maravilha. Eles simbolizam a audácia do espírito humano, a resiliência e a determinação. E, claro, a nossa curiosidade sem limites sobre o Universo em que vivemos.

Uma versão anterior deste artigo foi publicada em julho de 2024.

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