O tempo de um voo Paris–Moscou bastou para a China enviar três pessoas ao espaço: o céu nunca pareceu tão pequeno.
Ao decolar em 31 de outubro a partir do deserto de Gobi, a missão tripulada Shenzhou-21 cravou um marco que, dentro do programa espacial chinês, ninguém esperava ver tão cedo - justamente porque a operação é delicada. Em apenas 3 horas e meia, os três astronautas (Zhang Lu, Zhang Hongzhang e Wu Fei) acoplaram na estação espacial Tiangong, que está a 400 km da Terra. Em escala astronômica, é um “pulo”, mas que se tornou, por isso mesmo, a viagem tripulada mais rápida da história para a China até a sua própria estação.
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Tiangong express
Para dimensionar o que a China conseguiu, dá para comparar com os deslocamentos até a Estação Espacial Internacional (ISS), que costumam se enquadrar em duas categorias de voo. A mais veloz prevê seis órbitas ao redor do planeta antes da chegada (algo em torno de seis horas).
Já a segunda opção é bem mais demorada: a nave completa trinta voltas em torno da Terra e leva aproximadamente dois dias para alcançar a ISS. Em 2020, a cápsula russa Soyouz MS-17 havia derrubado todos os recordes ao cumprir um trajeto de três horas e três minutos (apenas duas órbitas).
Nos voos anteriores, as cápsulas Shenzhou rumo à estação Tiangong levavam, em média, seis horas. Como, então, a CMSA (Agência Chinesa de Voos Espaciais Tripulados) conseguiu cortar esse tempo quase pela metade?
A janela perfeita entre Terra, foguete e Tiangong
Para que a cápsula chinesa chegasse tão depressa, foi necessário um alinhamento quase perfeito entre a Terra, o foguete e a estação. Os engenheiros cronometraram o lançamento para que a Tiangong passasse exatamente sobre o sítio de Jiuquan no instante em que o foguete entrava na fase de injeção orbital. Com essa sincronia, a Shenzhou-21 pôde se inserir diretamente no que se chama de órbita de encontro, encurtando em quase um dia o tempo normalmente exigido nesse trajeto.
Uma manobra sem margem de erro
Uma manobra desse tipo elimina qualquer folga para erros. A cápsula precisa alcançar a altitude, a velocidade e o ângulo de subida corretos já no momento da inserção orbital; caso contrário, ela perde o plano de voo da estação. Um desvio mínimo - poucos segundos no lançamento ou alguns metros por segundo na injeção - seria suficiente para comprometer toda a operação.
Por isso, tudo é definido com antecedência pelos engenheiros antes mesmo de a cápsula deixar a atmosfera (orientação do veículo, correções de trajetória, microimpulsos dos propulsores a bordo, etc.): é preciso acertar logo na primeira volta ao redor da Terra.
O recado político por trás do Shenzhou-21
O resultado é um feito técnico e logístico, mas também carrega um forte peso político. Em cerca de 30 anos, a China conseguiu recuperar décadas de atraso tecnológico e se colocar no mesmo patamar das grandes potências espaciais. Ao assinar o voo mais rápido até a própria estação, o sinal enviado aos Estados Unidos e à Europa equivale a um golpe orbital na grande narrativa ocidental da conquista espacial. A China já não aceita o papel de seguidora e “aluna aplicada”, mas sim o de espectadora de seus rivais.
A conquista extraordinária da Shenzhou-21 garante a Pequim algo que a NASA ainda busca obter com o programa Artemis: um capital de confiança científica e política, que a agência norte-americana tem dificuldade de recuperar desde Apollo.
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