O impacto do relançamento ousado e extremamente colorido da Jaguar ainda está bem vivo na lembrança de muitos apaixonados por carros. Mesmo assim, quem é fã da marca vai precisar de um pouco mais de paciência: desde a estreia do chocante concept Type 00 cor-de-rosa, durante a Art Basel em Miami no fim de 2024, já se passou exatamente um ano.
O reposicionamento oficial da marca também vai demorar mais para acontecer. O seu “primeiro” modelo dessa nova fase - um Gran Turismo com mais de 5,2 m de comprimento - provavelmente continuará em sigilo até o fim do verão. E os primeiros carros só devem começar a chegar aos clientes a partir da primavera de 2027.
Ainda que parte do público mais conservador siga reclamando e algumas fabricantes estejam revendo promessas de apostar apenas na mobilidade elétrica, o futuro Jaguar GT não será só gigantesco: ele será 100% elétrico. O CEO da Jaguar, Rawdon Glower, não deixa dúvidas:
“Continuamos totalmente empenhados num futuro totalmente elétrico e estamos na fase final de desenvolvimento deste novo Jaguar GT. Tendo conduzido o carro pessoalmente, posso garantir que a espera valeu a pena”.
Rawdon Glower, diretor-geral da Jaguar
Com o F-Type, o E-Pace e o F-Pace já no passado, uma nova era está prestes a começar. Por isso, é um bom momento para visitar Gaydon, o departamento de desenvolvimento fortemente protegido da JLR - antiga Jaguar Land Rover.
Mesmo sob uma camuflagem pesada em preto e branco, o sedã de quatro portas impõe respeito e presença. Na frente, as finas fendas luminosas de LED intimidam mais do que um céu carregado; atrás, os para-lamas dramaticamente esculpidos chamam tanta atenção quanto a dianteira. Ali dentro, giram rodas enormes de 23″ montadas em aros bem surrados, daqueles que claramente já viveram dias melhores. “23”… e de série”, como Glower faz questão de enfatizar.
O concept car Type 00, por sua vez, bebe claramente na fonte do Art Déco dos anos 30 - num espírito parecido com o de um Rolls-Royce moderno - e leva ao extremo a ideia de opulência e luxo sobre rodas, de forma igualmente teatral.
Nos protótipos de teste, dá para notar que o carro de produção terá um balanço dianteiro mais longo, manterá o enorme capô frontal (mesmo sem um motor a gasolina de muitos cilindros) e exibirá maior altura do solo e maior volume de carroceria. Ainda assim, a maior parte dos elementos do Type 00 deve permanecer, já que eles são fundamentais para a nova linguagem de design revolucionária que a Jaguar quer introduzir. E, claro, em relação ao Type 00, entram duas portas a mais.
O que já sabemos sobre o Jaguar GT?
Chamado, por enquanto, simplesmente de Jaguar GT - a marca ainda não confirmou o nome definitivo… -, ele será construído sobre uma nova plataforma dedicada a elétricos, a Jaguar Electrified Architecture (JEA). Ela não será compartilhada com Range Rover ou Defender e também servirá de base para, pelo menos, mais dois modelos “felinos” (um SUV e um sedã).
É esperado um sistema elétrico de pelo menos 800 V, essencial para viabilizar a adição de 320 km (WLTP) em apenas 15 minutos. A autonomia máxima deve chegar a 700 km graças a uma bateria de aproximadamente 120 kWh, que (assim como os motores) será compartilhada com futuros modelos elétricos da JLR.
Também estão nos planos soluções técnicas sofisticadas, como direção nas quatro rodas e suspensão a ar, além de três motores elétricos - um na frente e dois atrás. A potência combinada ficará por volta de 735 kW (1000 cv) e o torque máximo passará com folga de 1000 Nm.
E na pista?
Foi possível sentar no banco do passageiro para ter uma noção do que esse conjunto é capaz de entregar. A posição ao volante é excepcionalmente baixa, e o carro segue incrivelmente silencioso até o circuito de alta velocidade. Lá, o engenheiro de testes Navid Shamshiri acelera até 200 km/h em poucos segundos, depois de algumas voltas iniciais mais tranquilas.
O Jaguar GT gruda no asfalto como se estivesse em trilhos; com entre-eixos longo e bitolas largas, o chassi parece extremamente competente - exatamente o tipo de base que combina com o britânico que sairá da linha de montagem em Solihull, no Reino Unido. “Para desenvolver um automóvel que tenha uma condução tão boa como a sua aparência, realizámos o programa de desenvolvimento mais abrangente da Jaguar até à data”, explica Shamshiri, voltando a destacar as qualidades do sistema elétrico do Jaguar antes de contornar a rotatória quase sem que se perceba e iniciar mais uma volta.
Por dentro, por trás dos tapetes escuros de camuflagem, tudo é ao mesmo tempo discreto e sofisticado. Couro por toda parte, tapetes macios e quatro bancos individuais confortáveis - é verdade, vários carros menos exclusivos também entregam isso. O que surpreende é que o painel de instrumentos é menor do que eu imaginava, e a tela central poderia facilmente ser confundida com um iPhone 17 Pro Max. Pelo menos neste protótipo, há duas ausências: uma tela para o passageiro e um head-up display.
O que podemos esperar do Jaguar GT?
É certo que o acabamento final e as escolhas de detalhe vão ter peso enorme, porque a Jaguar precisará subir de nível nesta reinvenção completa da própria imagem. Afinal, a faixa de preço não só vai aumentar, como deve ser arremessada para uma galáxia totalmente diferente. É improvável que o futuro Jaguar GT elétrico custe menos de 150 mil euros. Nesse patamar, o ar fica mais rarefeito - e a perfeição exigida faz a tarefa “respirar” ficar bem mais difícil.
A área envidraçada lateral do Jaguar GT é estreita, os painéis de carroceria são incomumente grandes e as rodas gigantes dominam o visual, a ponto de o protótipo camuflado parecer quase surreal. Mesmo no campo de provas, o britânico futurista se destaca nas mãos de Navid Shamshiri, apesar do tempo ruim, com uma suspensão bem calibrada - firme, mas longe de ser desconfortável. Há bolsas de ar tanto na dianteira quanto na traseira.
“Nunca houve um Jaguar como este antes”, reforça Rawdon Glower. Em 2026, veremos a Jaguar voltar e inaugurar um capítulo novo e ousado. O primeiro integrante de uma nova geração de elétricos de luxo será este GT - o Jaguar mais avançado tecnologicamente de todos, um carro sem equivalente tanto no visual quanto na sensação ao dirigir. Ao mesmo tempo, marketing e reposicionamento de marca precisam dar certo, já que a tarefa parece maior do que qualquer programa de desenvolvimento veicular com complexidade semelhante.
O mundo espera com ansiedade para descobrir como será o futuro da Jaguar. E o mesmo vale para os principais rivais em potencial, como o Rolls-Royce Spectre, o Cadillac Celestiq e o (também atrasado) substituto elétrico do Maserati Quattroporte.
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