Pela primeira vez desde o fim da Guerra do Pacífico, uma frota multinacional estruturada em torno de quatro porta-aviões manobra no Mar de Filipinas sob a liderança britânica da Operação Highmast - um exercício concebido para medir a prontidão de combate dos aliados e testar, de forma calculada, quais são as linhas vermelhas de Pequim no Indo‑Pacífico.
Uma rara demonstração de força com quatro porta-aviões
A Operação Highmast reúne uma coligação que Londres espera transformar em modelo para futuras missões no Indo‑Pacífico. O HMS Prince of Wales navega lado a lado com o destróier japonês de perfil “porta‑aviões” JS Kaga e com dois grupos de ataque de porta‑aviões da Marinha dos Estados Unidos, reforçados por forças australianas e por navios de guerra da Noruega e da Espanha.
"Quatro porta-aviões a operar em formação cerrada transmitem uma mensagem muito mais ruidosa do que qualquer comunicado de Londres, Washington ou Tóquio."
O cenário do exercício está longe de ser neutro. O Mar de Filipinas fica na borda oriental do Mar do Sul da China, onde China, Filipinas e vários vizinhos disputam reivindicações sobrepostas. Para estrategistas chineses, ver uma armada aliada robusta nessa zona pode soar desconfortavelmente como um ensaio para romper um bloqueio ou para sustentar a defesa de Taiwan.
Por que o local da Operação Highmast incomoda Pequim
A seleção dessas águas não é casual. Foi no Mar de Filipinas que a Marinha dos EUA derrotou a frota imperial japonesa em 1944, ajudando a selar o desfecho da Guerra do Pacífico. Realizar um grande treino combinado na mesma área faz referência a essa memória histórica e, ao mesmo tempo, sinaliza que aliados ocidentais e parceiros regionais ainda pretendem dominar essas rotas marítimas.
Oficialmente, Pequim classifica exercícios desse tipo como “provocativos” e “interferência externa”. Na prática, é provável que unidades navais e aéreas chinesas estejam a acompanhar de perto os porta‑aviões, recolhendo inteligência e verificando como a coligação reage a aeronaves que se aproximam ou a passagens próximas de navios de guerra chineses.
Quem trouxe o quê para a Operação Highmast?
A composição do grupo deixa claro o quanto a coligação se ampliou em torno do eixo EUA‑Japão na Ásia.
- Reino Unido: HMS Prince of Wales e jatos F‑35B do renomado Esquadrão 617 (“Destruidores de Represas”).
- Japão: JS Kaga, adaptado para operar F‑35B e apresentado como símbolo da expansão do papel de segurança de Tóquio.
- Estados Unidos: dois grupos de ataque de porta‑aviões distintos, cada um com escoltas, submarinos e suas alas aéreas.
- Austrália: combatentes de superfície e navios de apoio da Força de Defesa Australiana.
- Noruega e Espanha: fragatas adicionais e suporte logístico, evidenciando o alcance da OTAN no Pacífico.
A participação de membros da OTAN que não são da região é justamente o que aumenta o desconforto de autoridades chinesas. Na leitura de Pequim, a aliança atlântica está a avançar para o que a China considera a sua vizinhança imediata.
Poder no ar: F‑35B e companhia
A configuração das alas aéreas é outro motivo para o exercício chamar atenção. O F‑35B de decolagem curta virou a estrela da aviação naval aliada graças à baixa observabilidade e à fusão de sensores. Um F‑35B britânico consegue operar a partir do HMS Prince of Wales num dia e, no seguinte, voar a partir do JS Kaga sem alterações relevantes.
"Operações partilhadas com F‑35 transformam os porta-aviões aliados em plataformas ‘prontas para integrar’, complicando todos os jogos de guerra chineses na região."
Além dos F‑35B, também voam no Mar de Filipinas caças F/A‑18 da Marinha dos EUA, helicópteros japoneses e uma combinação de aeronaves de alerta antecipado e de guerra antissubmarino, em padrões de missão complexos. As tripulações treinam como partilhar quadros de radar, transferir alvos e coordenar guerra eletrónica quase em tempo real.
Treino para muito além de um conflito armado
A Operação Highmast não se limita a cenários de combate de alta intensidade. Os planejadores incluíram atividades de assistência humanitária: evacuação de vítimas em massa, lançamentos de ajuda em desastres e coordenação de busca e salvamento.
Essas vertentes são relevantes numa região frequentemente atingida por tufões e sismos. Para governos do Sudeste Asiático que observam com apreensão, a capacidade de porta‑aviões aliados entregarem ajuda com a mesma rapidez com que poderiam empregar mísseis ajuda a reduzir o receio de que o Indo‑Pacífico esteja a virar apenas um tabuleiro militar.
Por dentro das manobras: de submarinos a ataques de porta‑aviões
Por trás das imagens encenadas de conveses reluzentes, as equipas executam algumas das tarefas mais exigentes que marinhas modernas conseguem realizar.
| Tipo de treino | Objetivo |
|---|---|
| Ataques coordenados de porta‑aviões | Treinar o lançamento de vagas de aeronaves a partir de múltiplos conveses contra alvos partilhados. |
| Guerra antissubmarino | Detetar e neutralizar submarinos hostis que ameacem as linhas marítimas de comunicação. |
| Integração de defesa aérea | Unificar sensores e mísseis de diferentes marinhas num único “escudo”. |
| Simulações humanitárias | Ensaiar operações de socorro e logística sob pressão. |
A parte antissubmarino é especialmente delicada. A China investiu muito em submarinos diesel‑elétricos e também em unidades de propulsão nuclear. Se marinhas ocidentais e parceiras elevarem a capacidade de rastreá‑los em águas profundas, ficam sob pressão tanto a credibilidade chinesa de segunda resposta quanto a sua aptidão para ameaçar a navegação comercial.
Mensagens no mar e nas redes
Os aliados não fazem questão de esconder o que estão a fazer. A Força Marítima de Autodefesa do Japão divulgou imagens selecionadas com cuidado: porta‑aviões britânico, americano e japonês a avançar em formação cerrada, aeronaves alinhadas no convés e helicópteros a ganhar rotação no horizonte.
A narrativa em redes sociais parece quase tão sincronizada quanto as manobras. Publicações com as etiquetas #MaisFortesJuntos e #AliadosEParceiros sustentam uma mensagem de unidade, resiliência e propósito comum.
"As sessões de fotos miram dois públicos ao mesmo tempo: tranquilizar parceiros e lembrar à China que ela enfrenta mais do que apenas a Marinha dos EUA."
Para Pequim - que recorre cada vez mais à imprensa estatal para exibir grupos de porta‑aviões chineses no Pacífico Ocidental - trata‑se de uma disputa direta de símbolos. Cada imagem de porta‑aviões aliados no Mar de Filipinas enfraquece a tese chinesa de que os Estados Unidos estariam isolados ou em declínio.
Por que quatro porta‑aviões mudam o cálculo estratégico
Um único grupo de ataque de porta‑aviões é um ativo poderoso, mas limitado: sustenta um número finito de surtidas, protege a si mesmo e cobre uma área definida. Ao reunir quatro porta‑aviões, com alas aéreas sobrepostas e escoltas, a equação altera-se de forma expressiva.
Numa crise em torno de Taiwan ou do Mar do Sul da China, uma formação como a treinada na Operação Highmast poderia:
- assegurar cobertura aérea para comboios que abasteçam aliados;
- manter patrulhas persistentes sobre recifes ou estreitos disputados;
- lançar pacotes de ataque simultâneos a partir de direções diferentes;
- alternar conveses para manutenção sem perder presença aérea.
Planejadores chineses passam a ter de considerar que marinhas aliadas podem recompor rapidamente uma força desse tipo, mesmo que a mistura exata de navios varie. O exercício diminui incertezas dentro da coligação e, ao mesmo tempo, aumenta a incerteza para a China.
Termos-chave que o público ouve a toda hora
O que “liberdade de navegação” significa, de facto, aqui
Autoridades costumam afirmar que exercícios assim protegem a “liberdade de navegação”. Na prática, a expressão refere-se a manter rotas marítimas abertas ao comércio. Cerca de 40% do comércio mundial passa por estrangulamentos no Indo‑Pacífico ligados ao Mar de Filipinas.
Se um conflito ou um bloqueio fechasse essas rotas, o choque económico não atingiria apenas o Leste Asiático, mas também a Europa e a América do Norte. Essa vulnerabilidade partilhada ajuda a explicar por que Noruega e Espanha aceitam enviar navios para tão longe de suas águas.
“Indo‑Pacífico livre e aberto”: slogan ou estratégia?
A fórmula “Indo‑Pacífico livre e aberto” tornou-se presença constante em discursos de Tóquio a Washington. A mensagem carrega dois pontos: oposição a anexações territoriais unilaterais e a promessa de que navios comerciais e militares de qualquer Estado devem poder transitar por águas internacionais sem assédio.
A China interpreta esse vocabulário como uma forma de conter a sua ascensão. Para Japão, Austrália, Reino Unido e outros, trata‑se de amarrar a própria segurança a regras que limitem a dominância de uma única potência.
O que pode vir a seguir
Estrategistas já especulam sobre versões futuras da Operação Highmast. Algumas hipóteses incluem porta‑aviões sul‑coreanos e franceses, ou até a participação da Índia com o seu próprio grupo de porta‑aviões, transformando a formação de quatro em um “clube” rotativo de marinhas com alinhamento semelhante.
A cada exercício de grande escala, a interoperabilidade avança. Rádios, ligações de dados e procedimentos são ajustados para que um piloto de um país consiga pousar no convés de outro à noite, com mar agitado, e ainda assim esteja totalmente integrado ao combate. Esse tipo de detalhe discreto é o que influencia resultados reais quando a tensão aumenta.
Para Estados costeiros do Sudeste Asiático, ganhos e riscos caminham lado a lado. Uma presença aliada ampliada pode desincentivar coerção e oferecer ajuda humanitária quando as tempestades chegam. Ao mesmo tempo, Filipinas, Vietname ou Indonésia podem acabar demasiado próximos da linha da frente se um erro de cálculo entre a China e essa coligação crescente de porta‑aviões transformar um ensaio na realidade.
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