As civilizações antigas erguiam templos para venerar o Sol; em 2025, a ideia é pôr satélites no espaço para alugá-lo por minuto.
A proposta - no mínimo inquietante - vem da Reflect Orbital, uma start-up dos Estados Unidos que quer instalar espelhos gigantes em órbita para redirecionar a luz solar para áreas da Terra, sob demanda e mediante pagamento.
Na prática, seria um serviço de “Sol sob demanda”: um cliente (empresa, agricultor, forças armadas etc.) pagaria para alugar temporariamente parcelas de luz. Uma espécie de versão 3.0 do fogo prometéico: capturar a luz do Sol e revendê-la para quem já tem tudo. Que ideia brilhante.
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Privatizar o Sol: a última mania do Vale do Silício
A Reflect Orbital foi cofundada por Ben Nowack, ex-estagiário da SpaceX (engenharia de propulsão) que passou sete meses na empresa de Elon Musk. Apesar de nova, a start-up já captou 20 milhões de dólares e fechou um contrato de 1,25 milhão com a Força Aérea dos EUA (US Air Force).
Constelação planejada: 4 000 satélites
Antes de colocar no espaço seus 4 000 satélites, que formariam a constelação definitiva, a empresa está concentrada no primeiro protótipo. Trata-se de um equipamento com 18 metros de envergadura, previsto para lançamento em 2026, em órbita heliossíncrona - uma trajetória que permite sobrevoar os mesmos pontos do planeta em intervalos regulares e, em cada passagem, devolver luz ao solo.
App para escolher o ponto iluminado
A promessa inclui um aplicativo móvel: o cliente selecionaria, em um mapa, o exato lugar que deseja clarear. Em seguida, os satélites-espelho da Reflect Orbital ajustariam seus painéis refletivos para redirecionar a luz do Sol para a área escolhida pelo cliente (conforme o vídeo mencionado).
No vídeo, vê-se Nowack operando o app no telefone e, logo depois, um feixe luminoso inundando a região onde ele está. O Futurism afirma que a cena teria sido montada com um projetor no solo, e não com um sistema orbital real.
Ainda que o vídeo pareça um fake dos mais evidentes, investidores enxergam aí um negócio altamente rentável. A Reflect Orbital quer transformar a luz solar em produto, oferecendo-a como um serviço premium para “marcas líderes” que buscam uma visibilidade fora do comum. A empresa diz já ter 260 000 reservas vindas de 157 países, sinal de que quem está disposto a financiar o projeto definitivamente não está com a luz toda acesa.
Luz demais
Pesquisadores, por outro lado, têm motivos para ser bem menos entusiasmados com a proposta da Reflect Orbital. “O feixe refletido por esses satélites é extremamente intenso; quatro vezes mais brilhante do que a lua cheia”, afirma John Berentine, astrônomo do observatório de Silverado Hills. “Ele terá impacto sobre a fauna local e também, por dispersão atmosférica, sobre as regiões vizinhas”.
Impactos em ecossistemas e no ciclo circadiano
A vida na Terra é regulada pela alternância entre dia e noite. Se luzes artificiais tão potentes forem introduzidas nesse ciclo, um equilíbrio biológico inteiro pode ser colocado em risco: migração de aves, reprodução de insetos, polinização noturna, ciclos hormonais de mamíferos e assim por diante.
Os seres humanos também seriam afetados, já que o sono depende do ritmo circadiano. Se centenas de pontos de luz passarem a surgir na superfície do planeta no meio da noite, o nosso relógio biológico também pode se desorientar.
Além da questão ética - bastante contestável -, é importante lembrar que isso equivaleria a um ato unilateral de privatização do céu, sem o consentimento de outras nações ou da comunidade científica. Com 4 000 satélites, o sobrevoo do globo inteiro seria inevitável, e o debate deixa de ser apenas técnico: torna-se profundamente político. O céu (e sua luz) também não seria um bem comum? Desde quando ele pode virar suporte publicitário sem que ninguém seja consultado?
A equação econômica que pode derrubar o projeto
Há uma sombra no plano (sem trocadilho) da Reflect Orbital: o modelo depende de uma conta especulativa demais. Segundo especialistas citados pelo NextBigFuture, um espelho de 54 m de largura não “restituiria que aproximadamente 0,04 W/m²”, ou seja, 30 000 vezes menos do que a radiação solar ao meio-dia. Para o negócio se pagar, a start-up teria de implantar dezenas de milhares de espelhos desse tamanho para alcançar uma iluminação realmente perceptível.
Do ponto de vista científico, nada impede que esses satélites sejam lançados; do ponto de vista econômico, todo o resto impede. Nem mesmo a SpaceX conseguiu sustentar um nível de coordenação orbital desse tipo entre milhares de equipamentos. Assim, a Reflect Orbital parece seguir os passos de Ícaro, e é difícil imaginar um final diferente; desta vez, porém, será a física - e não Hélio - a nêmesis dessa megalomania tecnológica.
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