O período do pós-guerra foi extremamente turbulento para a indústria automobilística alemã. O esforço bélico deixou o país devastado, com linhas de montagem ultrapassadas e o desenvolvimento de novos modelos praticamente paralisado.
Nesse cenário, a BMW esteve entre as marcas mais castigadas. Embora a Série 502 ainda exibisse sólida competência técnica e o 507 roadster continuasse a alimentar o imaginário de muitos compradores, os volumes eram baixos - e o 507 roadster dava prejuízo. No fim dos anos 50, quem mantinha a Bavarian Motor Works minimamente viva eram apenas os pequenos Isetta e 700.
Uma chama que, em 1959, ficou a um passo de apagar. Mesmo com engenheiros e designers já tendo projetos prontos, a empresa não dispunha de caixa nem das garantias exigidas pelos fornecedores para colocar os carros em produção.
A falência parecia questão de tempo. Diante do agravamento acelerado da situação da BMW, o maior fabricante alemão daquele momento, a Daimler-Benz, considerou seriamente comprar a marca.
A ofensiva da arquirrival de Estugarda
Não era uma tentativa de “matar” concorrência - até porque, naquela fase, a BMW não representava ameaça real à Mercedes-Benz. A ideia era outra: converter a BMW em fornecedora de peças para a Daimler-Benz.
Com credores pressionando sem cessar e a comissão de trabalhadores aumentando a cobrança por causa do clima nas linhas de produção, Hans Feith, presidente do conselho de administração da BMW, colocou os acionistas contra a parede. Restavam duas saídas: declarar falência ou aceitar a proposta dos arquirrivais de Estugarda.
Sem querer insinuar nada sobre Hans Feith, vale registrar que “por acaso” Feith também era representante do Deutsche Bank, e que “por acaso” (x2) o Deutsche Bank estava entre os principais credores da BMW. E que “por acaso” (x3), o Deutsche Bank era um dos grandes financiadores da Daimler-Benz. Coincidências, naturalmente…
Em 9 de dezembro de 1959, por muito pouco (muito pouco mesmo), o conselho de administração da BMW rejeitou a proposta de aquisição pela Daimler-Benz. Minutos antes da votação, a maioria dos acionistas voltou atrás.
Diz-se que Herbert Quandt (na imagem em destaque) teve papel decisivo para esse desfecho. Quandt, que no começo das conversas era favorável à venda da BMW, mudou de posição conforme o processo avançava, ao ver a reação dos sindicatos e a instabilidade resultante nas linhas de produção. Aquilo poderia significar o fim da marca - não apenas como fabricante de automóveis, mas como empresa.
A resposta de Quandt e o futuro da BMW
Depois de muita reflexão, Herbert Quandt fez o que quase ninguém esperava. Indo contra recomendações dos próprios gestores, ele passou a aumentar sua participação no capital da BMW… justamente uma empresa quebrada.
Quando sua fatia se aproximou de 50%, Herbert procurou o estado federal da Baviera para costurar um acordo que viabilizasse concluir a compra da BMW.
Com garantias bancárias e financiamentos que ele conseguiu negociar com os bancos - fruto das relações que mantinha na “praça”-, finalmente surgiu o dinheiro necessário para iniciar a produção dos novos modelos.
Foi assim que nasceu a Neue Klasse (Nova Classe), a família de carros que acabaria servindo de alicerce para a BMW que conhecemos hoje. O primeiro integrante dessa nova fase seria o BMW 1500, revelado no Salão de Frankfurt em 1961 - menos de dois anos após o risco concreto de falência.
O BMW 1500 foi, inclusive, o primeiro modelo da marca a exibir o “Hofmeister kink”, o famoso recorte no pilar C ou D que passou a aparecer em todos os modelos da BMW.
A ascensão da BMW (e do império da família Quandt)
Dois anos depois da estreia da Série 1500, chegava a Série 1800. A partir dali, a marca bávara emplacou venda após venda.
Com o tempo, Quandt começou a tirar de si a centralidade da gestão, distribuindo responsabilidades - até que, em 1969, tomou outra decisão que influenciaria positivamente (e para sempre) o destino da BMW: nomear o engenheiro Eberhard von Kunheim como diretor-geral da BMW.
Eberhard von Kunheim foi quem pegou a BMW ainda com perfil de marca generalista e a conduziu até se tornar a marca premium que ela é hoje. Lembram que, anos antes, a Daimler-Benz nem via a BMW como rival? Pois é. O jogo virou e, nos anos 80, eles chegaram até a correr atrás do prejuízo.
Herbert Quandt morreria em 2 de junho de 1982, a apenas três semanas de completar 72 anos. Aos herdeiros, deixou um patrimônio gigantesco, composto por participações em algumas das principais empresas alemãs. Atualmente, a família Quandt segue como acionista da BMW.
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