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Porto secreto no Mediterrâneo: Essa descoberta pode revelar o túmulo de Cleópatra?

Mergulhador explorando ruínas subaquáticas com inscrições e artefatos egípcios antigos no fundo do mar.

Há cerca de dois mil anos, pesquisadores tentam descobrir onde a última rainha do Egito foi enterrada. Agora, uma hipótese volta a ganhar força: a pista para o lendário túmulo de Cleópatra pode começar debaixo d’água, perto de um templo por muito tempo subestimado a oeste de Alexandria.

Um porto submerso muda o rumo da busca em Taposiris Magna

Em 18 de setembro de 2025, o Ministério do Turismo e das Antiguidades do Egito anunciou uma descoberta que, à primeira vista, parece típica da arqueologia submarina: nas proximidades do litoral do Mediterrâneo, teria sido identificado um porto antigo, hoje soterrado a vários metros abaixo do nível do mar.

Esse tipo de comunicado não é raro no Egito, um país que vive (também) da própria história. Ainda assim, o local chamou a atenção de especialistas imediatamente. As estruturas do porto ficam a poucos quilómetros de Taposiris Magna, um complexo de templos a cerca de 50 quilómetros a oeste de Alexandria. É justamente ali que uma equipa internacional segue há anos uma linha de investigação ousada: Taposiris Magna poderia ser o lugar onde Cleópatra VII e o seu amante Marco Antônio foram sepultados.

Um porto recém-descoberto ao largo da costa coloca Taposiris Magna no centro da que talvez seja a busca por túmulo mais espetacular da atualidade.

A principal defensora dessa tese é a pesquisadora dominicana Kathleen Martinez - originalmente advogada criminalista, hoje arqueóloga e há anos próxima da National Geographic. Para ela, o achado do porto se encaixa como mais uma peça num quadro maior formado por inscrições, arquitetura cultual, cerâmica e moedas.

Por que Taposiris Magna é considerada uma possível última morada

Cleópatra é vista como a governante mais popular do Egito ptolomaico. Reinou de 51 a 30 a.C., apresentou-se como a reencarnação da deusa Ísis e construiu, tanto na política interna quanto na diplomacia, a imagem de uma rainha divina. Após a derrota para Octaviano na batalha naval de Ácio, ela tirou a própria vida - provavelmente em Alexandria. Desde então, não existe nenhuma evidência segura que aponte para o seu túmulo.

O vencedor romano tinha um objetivo claro: exibir Cleópatra em Roma como troféu do seu poder. O fato de isso não ter acontecido ajudou a transformá-la em lenda já na Antiguidade. Fontes posteriores até mencionam um sepultamento, mas o local e a forma permanecem vagos. Por muito tempo, Alexandria pareceu o palpite mais óbvio. Parte da metrópole antiga, porém, está hoje submersa: terremotos e subsidência do solo fizeram áreas inteiras afundarem no mar.

Martinez decidiu partir de outro ponto. A pergunta que ela colocou foi qual lugar, no fim do período ptolomaico, faria sentido do ponto de vista teológico, político e militar. A resposta dela: Taposiris Magna, um complexo dedicado a Osíris e Ísis - exatamente as divindades com as quais Cleópatra se associava.

Indícios que apontam para Taposiris Magna (Cleópatra VII)

  • Importância religiosa: o templo era um centro de culto relevante para Osíris e Ísis, fundamentais na autoimagem de Cleópatra.
  • Achados arqueológicos: surgiram moedas com o seu retrato, além de cerâmica e oferendas datadas do seu reinado.
  • Estruturas funerárias: pesquisadores identificaram várias câmaras sepulcrais no templo e no subsolo, possivelmente destinadas a pessoas de alta posição.
  • Posição militar: no momento da morte de Cleópatra, Taposiris Magna aparentemente ainda não estava sob controlo romano - o que representaria uma vantagem estratégica.

É essa combinação que leva Martinez a sustentar que Cleópatra teria sido enterrada num local carregado de simbolismo, mas ainda relativamente protegido do ponto de vista militar. O porto agora reportado se encaixa de maneira sugestiva nessa lógica: ele poderia ter servido como via de acesso para procissões, sacerdotes e valiosas oferendas funerárias rumo ao templo.

Como um porto submerso pode virar um divisor de águas

Até aqui, o porto recém-identificado é descrito principalmente por alinhamentos de muros, estruturas de atracação e restos de construção dispersos. Imagens de satélite, mergulhos e técnicas de varredura subaquática, como sonar, indicaram que o conjunto pode ter sido muito maior do que se supunha inicialmente.

Para a busca pelo túmulo, isso implica repensar o entorno de Taposiris Magna. Se o templo tinha um porto próprio, então ele provavelmente estava mais integrado ao comércio mediterrânico do que se acreditava. E isso eleva a chance de o complexo ter tido um peso político e religioso maior do que sugerem manuais antigos.

Quanto mais importante Taposiris Magna tiver sido, mais plausível fica a ideia de que Cleópatra teria mandado preparar ali um túmulo com o máximo de força simbólica.

Martinez e a sua equipa planeiam intensificar o trabalho subaquático nos próximos meses. Estão previstos mergulhos sistemáticos, recolha de amostras de sedimento, fotogrametria subaquática e reconstruções em 3D. O objetivo é determinar se o porto se ligava diretamente a áreas cultuais do templo ou se, eventualmente, abrigava zonas rituais próprias ainda desconhecidas.

Um documentário acompanha a missão delicada

A National Geographic está a acompanhar as atividades em formato audiovisual. O documentário “O segredo final de Cleópatra” pretende mostrar a combinação de pesquisa de campo tradicional, tecnologia de ponta e uma busca pessoal quase obsessiva. O que já fica claro é que procurar Cleópatra tem pouco de caça romântica ao tesouro: trata-se, na prática, de um processo demorado de confronto entre indícios, hipóteses e dados de medição.

Ao mesmo tempo, o filme enfatiza os riscos. Trabalhar debaixo d’água é perigoso, e o acesso a certas áreas é bastante limitado. Correntes, baixa visibilidade e a possibilidade de desabamentos em ruínas tornam cada minuto de mergulho mais difícil.

O que significaria encontrar o túmulo

Se a suspeita ligada a Taposiris Magna se confirmar, a arqueologia estaria diante de uma descoberta do século. Em termos de impacto, o túmulo de Cleópatra seria comparável ao de Tutancâmon - talvez até superior. Afinal, enquanto Tutancâmon se tornou ícone em grande medida por acaso, Cleópatra simboliza toda uma época de transição entre o Egito dos faraós e a ascensão de Roma como potência dominante.

Um sepultamento intacto - se ainda existir - poderia responder a perguntas que desafiam a pesquisa há décadas:

  • Como Cleópatra morreu de fato, para além das narrativas literárias?
  • Que papel emissários romanos desempenharam nos seus últimos dias?
  • Como era o culto funerário no fim da dinastia ptolomaica?
  • Que mensagens políticas a composição do enxoval funerário transmitia?

Ao mesmo tempo, o Egito enfrentaria um equilíbrio delicado. Um achado assim atrairia milhões de turistas do mundo todo. A pressão para abrir o local à visitação seria enorme, embora a conservação provavelmente exija cautela. O país já trabalha há anos para reduzir a sobrecarga em sítios famosos como Luxor, o Vale dos Reis e Abu Simbel.

Como funciona a arqueologia submarina no Egito

O anúncio do porto submerso encaixa-se numa série de descobertas marítimas. Diante de Alexandria, equipas localizaram nas últimas décadas partes do antigo farol, estátuas, colunas e complexos portuários inteiros. As cidades outrora submersas de Heracleion e Canopo também mostram o quanto a zona costeira sofreu subsidência ao longo do tempo.

Os passos típicos desse tipo de investigação costumam seguir um roteiro como este:

  • Triagem inicial com mapas históricos, textos e dados geológicos.
  • Levantamentos com sonar e magnetómetros para identificar estruturas no subsolo.
  • Mergulhos direcionados em pontos de interesse, com documentação fotográfica.
  • Recolha de amostras, datação e análises de materiais em terra.
  • Exposição gradual das áreas mais relevantes.

Cada etapa exige tempo, financiamento e autorizações. No Egito, o fator político também pesa: arqueologia é, em parte, política de imagem. Descobertas geram manchetes; novos museus e projetos de prestígio ajudam a reforçar a reputação do país como berço da civilização.

Por que os mitos sobre Cleópatra persistem tanto

Cleópatra não fascina apenas historiadores, mas também a cultura pop, a literatura e o cinema. Um motivo é o seu lugar numa fratura histórica. Com a sua morte, acabou o domínio ptolomaico e o Egito tornou-se província do Império Romano. Ao mesmo tempo, uma onda de propaganda moldou a sua figura: autores romanos preferiram retratá-la como sedutora e intrigante - uma imagem que sobrevive até hoje.

A pesquisa contemporânea tenta corrigir esse estereótipo. Indícios apontam para uma governante politicamente sofisticada e multilíngue, capaz de transitar com habilidade entre a tradição helenística e a egípcia. Um túmulo com inscrições, estátuas e símbolos originais poderia refinar esse retrato de modo decisivo - ou obrigar a revê-lo.

Há ainda um elemento extra: expressões como “faraó”, “rainha divina” ou “soberana do Nilo e do mar” têm apelo imediato. Para muitas pessoas, elas evocam grandes produções, palácios sombrios, tesouros de ouro e romances dramáticos. Essa mistura de arqueologia e emoção é justamente o que torna tão intensa a atenção sobre a busca pelo seu túmulo.

O que interessa ao público no Brasil neste caso

Para quem acompanha do Brasil, pode surgir a dúvida: além do suspense, qual é a relevância? Mais do que parece. A egiptologia e a arqueologia no Egito são movidas por cooperação internacional, e institutos alemães e austríacos atuam no país há décadas - no Vale dos Reis, em Saqqara e em templos na Núbia, por exemplo. Além disso, muitos métodos modernos de análise - de escaneamentos 3D à investigação de DNA antigo - foram desenvolvidos em laboratórios europeus.

Se o túmulo de Cleópatra for realmente encontrado, é plausível que haja parcerias com centros de pesquisa de países de língua alemã. Análises radiológicas, ciência dos materiais e restauro exigem colaboração internacional. Para museus em Berlim, Munique, Viena ou Basileia, um achado desse porte seria um tema de enorme atração para exposições especiais.

Até lá, tudo continua a ser uma aposta no futuro. A própria Kathleen Martinez diz com confiança que é “apenas uma questão de tempo” até que o véu se levante. O porto submerso diante de Taposiris Magna, pelo menos, reforça a sensação de que a investigação pode estar a sair de um beco sem saída e a entrar numa fase em que cada nova temporada de escavações pode trazer respostas reais - ou levantar perguntas completamente novas.

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