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Novo estudo: alimentos ultraprocessados reduzem a fertilidade feminina.

Mulher com cesta faz compras de frutas e verduras em supermercado, segurando celular azul.

A infertilidade afeta milhões de mulheres em todo o mundo. Quem passa por isso geralmente associa o problema a hormônios, doenças prévias ou à idade. Um grupo internacional de pesquisadores, porém, destaca um fator cotidiano discreto e, ao mesmo tempo, potente: alimentos ultraprocessados - como produtos prontos, lanches industrializados e refrigerantes. A forma como esses itens se relacionam com hormônios, inflamação e o intestino pode ajudar a entender por que eles reduzem de modo mensurável as chances de engravidar.

O que as pesquisadoras e os pesquisadores analisaram

A nova análise foi conduzida por cientistas da McMaster University, no Canadá. Eles usaram dados de uma ampla pesquisa dos Estados Unidos, a “National Health and Nutrition Examination Survey” (Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição), que reúne informações detalhadas sobre saúde, estilo de vida e alimentação.

Para o estudo agora publicado, a equipe avaliou 2.582 mulheres entre 20 e 45 anos. Todas informaram se estavam tentando engravidar sem sucesso havia pelo menos um ano. Assim, foi possível separar dois grupos: mulheres com dificuldades para engravidar e mulheres sem restrição conhecida de fertilidade.

Além disso, as participantes registraram em dois dias diferentes tudo o que comeram e beberam ao longo de 24 horas. Com esse material, os pesquisadores estimaram qual parcela de alimentos ultraprocessados representava a ingestão total de energia.

"As mulheres com dificuldade para engravidar consumiam, em média, bem mais alimentos ultraprocessados do que as demais participantes - e até uma diferença de poucos pontos percentuais já se associou a um risco perceptível para a fertilidade."

O que, afinal, entra na categoria de “alimento ultraprocessado”?

Especialistas classificam como ultraprocessados os produtos que ficam muito distantes do alimento original e passam por diversas etapas industriais. Entre os exemplos mais comuns estão:

  • lanches embalados, como chips, biscoitos, barras
  • refrigerantes, energéticos e chás gelados adoçados
  • pratos prontos do freezer
  • itens de conveniência, como macarrão instantâneo ou pizza de micro-ondas
  • embutidos muito processados e substitutos de carne industrializados

Em geral, esses produtos carregam vários aditivos - aromatizantes, emulsificantes, corantes e conservantes - muitos deles ausentes de uma cozinha tradicional. Ao mesmo tempo, costumam ter muito açúcar, gorduras de pior qualidade e sal, com pouca fibra e menor densidade de micronutrientes.

No conjunto da amostra, os ultraprocessados responderam, em média, por cerca de 27% das calorias consumidas. Entre as mulheres com problemas de fertilidade, essa proporção ficou por volta de 30%. Embora a diferença pareça pequena, ela se mostrou estatisticamente ligada à probabilidade de engravidar.

Como os ultraprocessados podem reduzir a fertilidade feminina

Os dados indicaram um padrão: quanto maior a participação de ultraprocessados na alimentação, menor a chance de a mulher estar no grupo fértil. Essa associação permaneceu mesmo depois de os cientistas ajustarem variáveis como idade, tabagismo, atividade física e peso corporal.

Isso reforça um aspecto que muitas vezes passa despercebido: não se trata apenas de calorias ou de excesso de peso. A própria natureza do alimento - e como ele é feito - parece interferir em processos do corpo que são essenciais para a reprodução.

"Os pesquisadores suspeitam que se somem substâncias químicas vindas de embalagens e do processamento, aumento de inflamação e alterações no ambiente intestinal - e, no fim, isso atrapalhe a capacidade de conceber."

Desreguladores hormonais de embalagens e do processamento

Um dos pontos de atenção recai sobre os chamados desreguladores endócrinos: substâncias capazes de desorganizar o sistema hormonal. Em alimentos ultraprocessados, os especialistas apontaram sinais de compostos como ftalatos, bisfenol A (BPA) e acrilamida.

Esses químicos podem chegar ao alimento por meio de plásticos, revestimentos internos de latas ou até equipamentos utilizados na indústria. No organismo, eles podem se ligar a receptores hormonais ou alterar a produção de estrogênio, progesterona e outros mensageiros decisivos para ovulação, implantação do embrião e manutenção da gestação.

Inflamação e microbiota intestinal como outras peças do quebra-cabeça

A análise também sugere que uma dieta rica em ultraprocessados favorece processos inflamatórios. Inflamações crônicas e de baixo grau podem prejudicar a maturação dos óvulos, modificar o endométrio e, com isso, diminuir as chances de uma implantação bem-sucedida.

Outra via possível é o intestino. Um padrão alimentar dominado por itens prontos e snacks normalmente significa pouca fibra e poucos compostos vegetais bioativos. Isso enfraquece bactérias benéficas. Como o intestino conversa de perto com o sistema hormonal, o sistema imune e até mecanismos de regulação do estresse, uma microbiota desequilibrada também pode repercutir na capacidade reprodutiva.

A dieta mediterrânea teve desempenho melhor

Em paralelo, os pesquisadores avaliaram o quanto as mulheres seguiam um padrão alimentar mediterrâneo. Características típicas incluem:

  • muitas frutas e verduras
  • grãos integrais no lugar de farinha branca
  • leguminosas e castanhas
  • óleos vegetais de boa qualidade, como o azeite de oliva
  • peixe em quantidade moderada e pouco consumo de carne vermelha e embutidos

Os grupos mais próximos desse padrão exibiram, inicialmente, indicadores de fertilidade melhores. Após ajuste pelo peso corporal, o efeito diminuiu, mas ainda foi observável. Isso sugere que um plano alimentar mais saudável pode influenciar a chance de engravidar tanto por favorecer um peso mais adequado quanto por oferecer maior densidade de nutrientes.

"Mulheres com dificuldade para engravidar alcançaram escores de dieta mediterrânea claramente mais baixos - um indício de que comida fresca e pouco processada pode funcionar como fator de proteção."

Por que não basta olhar apenas os nutrientes

Um recado central do estudo é que a qualidade da alimentação não se resume a calorias, proteína, gordura ou vitaminas. O grau de processamento tem impacto próprio. Quando ultraprocessados tomam o lugar de alimentos in natura ou minimamente processados, a ingestão de fibras, ferro, zinco, ácido fólico e vitaminas importantes tende a cair - nutrientes relevantes para regulação do ciclo, desenvolvimento dos óvulos e sustentação de uma gestação saudável.

Ao mesmo tempo, aumenta a exposição a compostos cuja ação de longo prazo ainda não é totalmente compreendida. Para os autores, isso representa um “ponto cego” em muitas recomendações alimentares, que costumam priorizar macronutrientes e peso corporal.

O que mulheres que querem engravidar podem fazer, na prática

O estudo não oferece uma solução única, mas aponta ajustes viáveis no dia a dia. Para apoiar a fertilidade, as medidas mais diretas incluem:

  • reduzir aos poucos a participação de alimentos ultraprocessados
  • planejar mais refeições com alimentos frescos e, sempre que possível, pouco processados
  • cozinhar em casa com mais frequência, em vez de recorrer constantemente a pratos prontos
  • preferir água ou chá sem açúcar e diminuir refrigerantes
  • desconfiar de listas de ingredientes muito longas e cheias de termos técnicos

Mudanças pequenas, mas consistentes, tendem a ser mais sustentáveis do que proibições rígidas. Um dia extra de comida caseira por semana ou a troca de um lanche (castanhas no lugar de chips) pode alterar a composição da dieta de forma perceptível ao longo de meses.

Como interpretar os achados e quais dúvidas ainda ficam

O trabalho é baseado em dados observacionais. Ele identifica associações, mas não comprova de maneira definitiva que ultraprocessados, por si só, causam queda de fertilidade. Fatores não medidos podem participar do resultado. Ainda assim, o conjunto é coerente com pesquisas anteriores sobre desreguladores hormonais, microbiota intestinal e inflamação.

Também permanece a questão de quão sensíveis são diferentes fases: regulação do ciclo, período antes da fecundação, implantação e início da gravidez - cada etapa pode reagir de forma distinta a químicos ambientais e ao padrão alimentar. Estudos futuros terão de esclarecer quais substâncias são mais críticas e em que dose o risco aumenta de forma relevante.

Caixa explicativa: o que são ftalatos, BPA e acrilamida?

Substância Origem Possível efeito
Ftalatos Plastificantes em polímeros; podem migrar de embalagens para os alimentos Agem como hormônios e podem interferir no sistema reprodutivo
BPA (bisfenol A) Presente em plásticos e no revestimento interno de latas Interfere em vias de sinalização do estrogênio e é associado a alterações do ciclo
Acrilamida Formada quando alimentos ricos em amido são aquecidos intensamente (fritar, dourar demais) Considerada potencialmente cancerígena; possíveis efeitos na reprodução ainda são debatidos

Evitar totalmente essas substâncias no cotidiano costuma ser difícil. Ainda assim, priorizar alimentos frescos e sem embalagem e limitar ultraprocessados tende a reduzir de maneira importante a exposição.

Para além da fertilidade: consequências para a saúde no longo prazo

O estudo canadense se soma a um número crescente de pesquisas que associam ultraprocessados a doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. O fato de surgirem sinais claros também no tema fertilidade torna mais urgente discutir uma “desindustrialização” do padrão alimentar.

Para quem está planejando uma gravidez, uma alimentação mais equilibrada pode trazer ganhos em várias frentes: melhor equilíbrio hormonal, maior estabilidade do peso, menor carga inflamatória - e, no horizonte, risco reduzido de doenças crônicas comuns. Por isso, profissionais de saúde e especialistas em nutrição frequentemente orientam casais que desejam engravidar a cuidar não só de estresse, sono e atividade física, mas também, de forma intencional, da qualidade do que vai ao prato todos os dias.

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