Varreduras de alta resolução de fragmentos de múmias do Antigo Egipto reclassificaram um embrulho há muito tempo identificado de forma errada como sendo um pé humano adulto, além de revelarem pormenores estruturais que antes não eram visíveis.
O estudo transforma restos fragmentados em registos biológicos recuperáveis, criando novas formas de estimar idade, identificar possíveis doenças e compreender práticas funerárias sem mexer nas faixas.
Tomografias computadorizadas (CT) identificam restos de múmias
Dentro da coleção do museu, fragmentos que durante anos resistiram a uma identificação segura passam agora a mostrar estruturas internas distintas e materiais em camadas.
Ao analisar as novas imagens, a Dra. Ibolyka Dudás, da Universidade Semmelweis, registou limites entre osso e tecido que as varreduras anteriores não tinham conseguido separar.
Essas diferenças mais nítidas desfazem confusões antigas sobre certos objetos, incluindo um embrulho que já foi etiquetado como cabeça e, mais tarde, chegou a ser considerado uma ave.
Mesmo com uma identificação mais precisa agora ao alcance, a própria limitação da leitura por imagem deixa questões importantes sobre origem e estado de conservação ainda em aberto.
Varreduras de CT com materiais densos e em camadas
Ao contrário de equipamentos mais antigos, a CT com contagem de fotões (photon-counting CT) - que regista partículas individuais de raios X e as suas energias - mantém detalhes mais finos em restos densos e com múltiplas camadas.
Como o detetor por contagem de fotões separa os sinais em vez de os misturar, as bordas do osso e as camadas de linho ficam mais claramente destacadas.
Esse contraste mais marcado ajuda os investigadores a interpretar objetos formados por osso, resina, linho e bolsas de ar que, em tomografias tradicionais, tendem a “fundir-se” visualmente.
Ainda assim, imagens mais limpas não resolvem tudo, e conclusões tentadoras continuam a exigir verificação cuidadosa.
O que a datação por radiocarbono revelou
Algumas destas peças estiveram durante décadas no Museu de História da Medicina Semmelweis (MNM), onde as etiquetas, em tempos, avançaram mais depressa do que as provas.
A datação por radiocarbono, um método para estimar idade a partir do decaimento do carbono, forneceu datas utilizáveis apenas para três dos seis espécimes.
A peça datada mais antiga situa-se entre 401 e 259 a.C., o que a coloca a mais de 2.300 anos no passado.
O intervalo de 401 a 259 a.C. fixa as tomografias numa janela histórica concreta, em vez de manter os fragmentos como enigmas atrás de um vidro.
Pistas nos ossos do crânio
Duas cabeças seccionadas passam agora a oferecer melhores condições para estimar idade através dos dentes e das junções entre os ossos do crânio.
As suturas cranianas - articulações entre ossos do crânio - vão-se fechando gradualmente ao longo da vida, ainda que forneçam apenas faixas etárias aproximadas.
Um estudo anterior sobre fragmentos relacionados da Semmelweis já tinha mostrado que até cabeças e pés poderiam gerar novos dados.
Com tomografias mais nítidas, esses mesmos indícios anatómicos poderão, com o tempo, sustentar modelos 3D detalhados e possíveis reconstruções faciais.
Pessoas em fases de vida diferentes
Um membro inferior esquerdo, por fim, exibiu padrões que as varreduras antigas não conseguiam traduzir numa avaliação segura.
As novas imagens apontam para osteoporose - afinamento ósseo que fragiliza o esqueleto -, mas ainda não permitem separar com clareza o que é envelhecimento do que é doença.
Um segundo membro esquerdo parece pertencer a alguém bem mais jovem, porque os ossos e os sinais de crescimento aparentam estar inacabados, e não totalmente adultos.
O contraste entre esses membros sugere que a coleção reúne pessoas em fases de vida muito diferentes, e não um conjunto “arrumado” de restos que se correspondem entre si.
Objeto estranho é finalmente identificado: um pé humano adulto
O objeto mais invulgar do grupo foi inicialmente catalogado como cabeça e, mais tarde, levantou a hipótese de ser uma múmia de ave.
Uma CT anterior já o tinha revelado como sendo um pé adulto, e as varreduras mais recentes distinguem as camadas de ligaduras com ainda mais clareza.
Como as faixas exibem estruturas diferentes, os investigadores conseguem agora comparar como os têxteis foram aplicados e o que, de facto, envolviam.
A provável origem a partir de uma múmia completa levanta uma questão mais difícil, porque ainda não se sabe quando nem por que motivo esse pé foi separado.
O que uma mão pode revelar
Uma mão analisada à parte pode parecer pouco expressiva, mas ossos pequenos costumam guardar pistas sólidas sobre idade e sexo.
Os investigadores comparam tamanho, crescimento e forma óssea, porque crianças e adultos deixam assinaturas anatómicas distintas.
Se a mão tiver pertencido a uma criança, as placas de crescimento ainda podem indicar pontos em que as extremidades ósseas não se fundiram completamente.
Esse fragmento isolado pode reforçar a história de uma pessoa, mesmo quando o resto do corpo não está presente.
Por que os fragmentos importam
Restos fragmentados costumam ser os primeiros a perder contexto, o que torna muito mais difícil avaliar identidade, doença e tratamento funerário.
A melhoria das imagens combate essa perda ao ligar, num mesmo objeto, ligaduras, condição do osso e vestígios de embalsamamento.
A imagiologia moderna consegue expor detalhes ocultos sem cortar nem desembrulhar nada - exatamente por isso os fragmentos merecem ser revistos.
Para museus, a varredura não destrutiva protege restos frágeis e, ao mesmo tempo, permite que a ciência reavalie rótulos antigos e pressupostos.
Múmias, tomografias (CT) e o futuro
A leitura detalhada das imagens ainda está em andamento, por isso vários indícios chamativos permanecem provisórios, e não diagnósticos finais.
Agora, os investigadores precisam de confrontar as tomografias com padrões esqueléticos, estudos têxteis e os registos anteriores da coleção.
Modelos 3D futuros podem ajudar a testar como as ligaduras foram construídas e se peças em falta chegaram a pertencer ao mesmo conjunto.
Respostas mais robustas levariam o projeto além da identificação, aproximando-o da reconstrução de vidas, lesões e práticas funerárias.
Entre cabeças, membros, um pé e uma mão, o scanner está a transformar fragmentos em evidência biológica conectada.
O resultado pode ser idades mais claras, diagnósticos mais firmes e histórias melhor sustentadas - mas apenas se as imagens sedutoras resistirem a uma análise rigorosa.
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