O exemplar único da Bugatti exibido no Salão de Genebra em 2019 foi negociado naquele mesmo ano por 16,7 milhões de euros, o que o colocou como o carro novo mais caro do planeta. Seis anos depois, vêm à tona o nome de quem o comprou e o enredo por trás da “La Voiture Noire”, um modelo que já nasceu “órfão” e que agora aparece à venda para bancar um projeto envolto em controvérsia.
A Bugatti só faz carros fora do comum, mas há um que se destaca tanto pelo preço quanto pelo próprio nome: “La Voiture Noire”. Lançada em 2019 como um one-off construído sobre a base da Chiron, ela reforçou o mito ao manter em sigilo a identidade do comprador - o responsável por um cheque de 16,7 milhões de euros - e, assim, fixar o recorde de carro novo mais caro do mundo.
Recorde de preço e um segredo bem guardado
Registrada no cantão de Zugo, na Suíça, a Bugatti “La Voiture Noire” não deixava pistas claras sobre o dono. E as poucas vezes em que apareceu publicamente nem sequer envolviam o carro definitivo: tanto no Salão de Genebra 2019 quanto no mercado de Natal de 2020, em Molsheim (Alsácia), o que se viu foi uma maquete.
Já o exemplar real foi notado em circulação só mais tarde - em 2022, em Zagreb, na Croácia, e em 2023, em Zurique, na Suíça - ainda assim sem qualquer indicação de quem estava por trás do volante (ou, ao menos, de quem guardava as chaves).
Em setembro de 2025, a história ganhou um capítulo inesperado quando o carro surgiu numa plataforma de leilões chamada SBX Cars, ligada à youtuber Supercar Blondie. Diferentemente de outras máquinas exclusivas, a curiosidade naquele momento não era tanto sobre quem compraria e por quanto, mas sobre quem havia mantido a posse do modelo por mais de cinco anos com discrição absoluta.
Uma figura central da indústria automotiva morreu antes de receber a Bugatti La Voiture Noire
Foi preciso chegar a 2026 - e uma investigação dos jornalistas alemães do Handelsblatt - para as peças se encaixarem. Longe de um “capricho de jogador” (o carro foi atribuído por muito tempo a Cristiano Ronaldo), a Bugatti La Voiture Noire pertencia a um nome de peso, historicamente próximo da marca: Ferdinand Karl Piëch. O executivo austríaco, acionista majoritário da Porsche Automobil Holding SE, também esteve por trás do plano que levou o grupo Volkswagen a adquirir a Bugatti.
Ferdinand Karl Piëch, porém, nunca chegou a receber a Bugatti La Voiture Noire, pois morreu em agosto de 2019. O exemplar único acabou destinado à família - em especial ao filho, Toni Piëch, que mantém uma empresa automotiva em Zugo, na Suíça, dedicada ao desenvolvimento de um esportivo elétrico. A companhia se chama Piëch Automotive AG, ainda pouco conhecida e, até hoje, sem ter colocado um modelo à venda.
Vender as joias da família para salvar um projeto em apuros: a apuração sobre herança e revenda controversa
Toni Piëch teria esbarrado em dificuldades de desenvolvimento desde que apresentou um conceito no Salão de Genebra 2019, o mesmo ano em que a Bugatti revelou a La Voiture Noire. Batizado de “Mark Zero”, o projeto nunca avançou para uma produção em escala industrial. Conforme a apuração do Handelsblatt, a empresa vive um quadro financeiro e operacional delicado. Nesse contexto, a tentativa de vender a Bugatti La Voiture Noire não seria um fato isolado: o valor obtido poderia ajudar a sustentar a companhia.
Ainda segundo o Handelsblatt, a Piëch Automotive AG chegou a captar recursos com investidores anteriormente, mas, desde então, diversos executivos e colaboradores importantes teriam deixado a empresa. Considerando o nível de raridade e o prestígio do modelo, uma venda desse porte poderia, de fato, dar fôlego a um negócio - mesmo no setor automotivo. Os repórteres alemães afirmam que a família Piëch teria pedido inicialmente 27 milhões de francos suíços (perto de 30 milhões de euros) e depois reduzido o valor para 23 milhões de francos suíços (25 milhões de euros).
Preço elevado, poucos interessados e a questão da imagem da Bugatti
Com cifras assim, é natural que existam poucos compradores. Além disso, a necessidade de encontrar alguém que não comprometa a imagem de marca da Bugatti estreita ainda mais o grupo de interessados. À venda desde setembro, o exemplar continua sem comprador. E, com a publicação da investigação do Handelsblatt, não é certo que o filho de Ferdinand Karl Piëch consiga o aval da Bugatti: colocar um modelo tão excepcional no mercado para financiar um projeto mal encaminhado dificilmente joga a favor da reputação do negócio.
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