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Cosmódromo de Baikonur sofre danos graves após falha do Soyuz MS-28

Técnico em roupa de segurança e capacete amarelo inspeciona equipamento em plataforma industrial enquanto fotógrafo registra

O Cosmódromo de Baikonur, uma das bases de lançamento mais movimentadas do mundo, sofreu danos relevantes depois de um lançamento problemático do Soyuz. Para recolocar o complexo em condições de uso, a Rússia provavelmente terá de investir pesado para recuperar a infraestrutura o quanto antes.

Localizado no Cazaquistão, Baikonur é o único local certificado sob gestão russa para enviar astronautas em missões tripuladas. Por isso, ele é central para o programa espacial do país e também influencia operações ligadas a missões europeias e norte-americanas. No dia 27 de novembro, um Soyuz MS-28 decolou dali; embora a missão tenha avançado, a plataforma de lançamento ficou seriamente afetada e, por enquanto, fora de serviço.

O episódio tende a gerar impactos em escala global, já que o cosmódromo é usado com frequência para levar tripulações até a Estação Espacial Internacional (ISS). O problema chega em um momento delicado para a Rússia, que já enfrenta dificuldades consideráveis na administração do seu programa espacial.

Baikonur e a importância do LC-1/5 para voos tripulados

Embora o complexo seja grande e tenha outros pontos de lançamento compatíveis com veículos Soyuz (LC-31/6, família R-7), esses locais não podem receber voos tripulados. Eles foram planejados para outras categorias de missão e não há como adaptá-los de forma viável para colocar tripulações em órbita. Assim, a área danificada (LC-1/5) era, no momento, a única de Baikonur autorizada a cumprir os padrões internacionais exigidos para a segurança de voos com pessoas a bordo - o que deixa a Rússia em uma posição bastante frágil.

Um lançamento parcialmente malsucedido

A nave conseguiu chegar à ISS sem incidentes, mas o que desencadeou o problema ocorreu depois da decolagem. Com o foguete já no ar, técnicos e engenheiros perceberam que algo tinha saído do padrão: a cabine móvel de manutenção (onde as equipes preparam o lançador) não estava mais no lugar de sempre.

A confirmação veio apenas após o envio de um drone para registrar imagens da área. A cabine foi encontrada caída, esmagada no fundo da vala de exaustão das chamas (ver fotos abaixo). Essa vala é uma estrutura de concreto presente em plataformas de lançamento justamente para desviar o jato e o sopro do foguete, evitando danos no solo ao redor. O fato de a cabine ter despencado sugere que ela cedeu diante da força do lançamento, indicando que o suporte que a mantinha presa ao solo não resistiu às vibrações extremas produzidas pelos motores do Soyuz MS-28.

Segundo a Roscosmos, a agência espacial russa, a queda "danificou muitos elementos da plataforma de lançamento". Oficialmente, a agência afirma que "os reparos serão realizados o mais rápido possível". Ainda assim, especialistas da área citados pelo NASASpaceflight (sem identificação pública) disseram que o módulo não tem recuperação e que uma substituição completa será inevitável.

Nos últimos anos, duas cabines desse mesmo tipo foram produzidas para outras plataformas Soyuz, e a fabricação de cada uma levou perto de dois anos. Com isso, é razoável supor que a infraestrutura atingida pela queda ficará indisponível por um período considerável.

Um acidente com consequências pesadas

Desde a invasão da Ucrânia, o relacionamento entre Estados Unidos e Rússia chegou a níveis muito baixos, mas a ISS ainda vinha sendo mantida como um espaço de cooperação preservado. As únicas duas naves capazes de transportar tripulações até lá são a Soyuz russa e a Crew Dragon, da SpaceX. Uma paralisação dos voos russos pode, portanto, forçar a NASA a revisar como as missões em solo são divididas entre Houston e Moscou - cenário que a deixaria ainda mais dependente da SpaceX e colocaria a Roscosmos em segundo plano.

Reparos, limitações e atrasos no cronograma

A agência russa diz dispor de "todos os elementos necessários para restaurar a plataforma de lançamento", mas é preciso encarar essas declarações com realismo. O LC-1/5 não volta a operar com medidas superficiais e, mesmo com obras em ritmo acelerado, a recuperação tende a exigir muito tempo. Vale lembrar ainda que essa plataforma, construída na era soviética, nunca passou por uma modernização de fato; o sistema de manutenção depende de peças que não são mais fabricadas ou que precisam ser refeitas de maneira idêntica, o que inevitavelmente estende todos os prazos.

Esse contratempo levou a Roscosmos a adiar em um ano o próximo lançamento (Soyuz MS-33), que estava marcado para 21 de dezembro, e há uma chance significativa de que o voo previsto para 14 de julho tenha o mesmo destino. Na prática, a Rússia fica, de facto, sem autonomia em voos tripulados - um revés do qual ela certamente abriria mão, considerando o contexto atual.

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