Algumas crianças parecem ter energia de sobra o tempo todo. Outras são mais reservadas e acham as situações sociais difíceis de decifrar. Com frequência, pais e mães ouvem falar em TDAH ou autismo e tentam entender o que esses termos realmente significam.
À primeira vista, pode parecer simples - dois nomes para duas condições diferentes -, mas a realidade é bem mais complexa.
Pesquisas recentes apontam para um outro jeito de enxergar o tema. Em vez de estarem em “caixas” separadas, autismo e TDAH podem se sobrepor de maneiras que começam bem dentro do cérebro.
Traços que se sobrepõem no autismo e no TDAH
Durante muitos anos, médicos trataram autismo e TDAH como condições claramente distintas. Uma estaria ligada sobretudo à atenção e à hiperatividade; a outra, às habilidades sociais e de comunicação.
Na prática, porém, muitas crianças apresentam uma combinação dos dois conjuntos de características. Uma criança com TDAH pode ter dificuldade para perceber sinais sociais. Já uma criança com autismo pode achar complicado manter o foco.
Essa interseção levou pesquisadores a formularem uma pergunta diferente: e se a diferença principal não estiver no rótulo, mas na intensidade de certos traços?
Com isso, em vez de começar pela pergunta “qual é o diagnóstico desta criança?”, os cientistas mudaram o ponto de partida para “o que esta criança está, de fato, vivenciando?”. Essa mudança de perspectiva alterou todo o rumo da investigação.
Padrões cerebrais compartilhados no autismo e no TDAH
Para testar essa ideia, pesquisadores analisaram a atividade cerebral de crianças enquanto elas estavam em repouso - não durante a solução de problemas nem enquanto executavam tarefas.
Mesmo nesse estado de calma, o cérebro continua funcionando, com sinais circulando entre diferentes regiões.
Os especialistas observaram que crianças com traços de autismo mais intensos também apresentavam uma comunicação mais forte entre determinadas áreas cerebrais. Essas áreas têm papel em processos como pensar, planear e compreender outras pessoas.
O dado mais curioso é que padrões semelhantes também surgiram em crianças com TDAH. Ou seja: o cérebro parecia responder aos traços, e não ao diagnóstico em si.
Um padrão de amadurecimento diferente do cérebro
Em geral, o cérebro vai se refinando à medida que a criança cresce. Dá para imaginar como arrumar um quarto desorganizado: conexões “a mais” são podadas para que o cérebro funcione de forma mais rápida e eficiente.
Mas, em algumas crianças - especialmente naquelas com traços de autismo mais fortes -, essa “arrumação” não acontece do mesmo modo. As conexões permanecem mais robustas e activas.
À primeira vista, isso pode soar positivo: mais conexões não deveria significar melhor funcionamento? Nem sempre.
Quando há conexões fortes em excesso, os sinais podem se misturar e se sobrepor. Isso pode tornar mais difícil compreender situações sociais ou tomar decisões. Não se trata de ser melhor ou pior - e sim de uma forma diferente de organização do cérebro.
Os genes também indicam sobreposição
Os genes funcionam como um conjunto de instruções. Eles orientam como o cérebro cresce e como as ligações entre regiões se formam. Os pesquisadores identificaram que essas mesmas áreas do cérebro também apresentavam actividade de genes associados ao desenvolvimento.
Muitos desses genes aparecem tanto no autismo quanto no TDAH. Assim, a sobreposição não é visível apenas no comportamento ou em exames do cérebro: ela existe em um nível bem mais profundo, já na etapa do “plano” biológico.
Essa é uma ideia poderosa, porque sugere que essas condições podem compartilhar uma origem comum, mesmo quando parecem diferentes na superfície.
Médicos já percebiam isso antes
Na rotina clínica, médicos observam essa sobreposição repetidas vezes. Agora, começam a surgir evidências biológicas que ajudam a explicar por quê.
“Vemos na clínica que algumas crianças com TDAH partilham sintomas qualitativamente semelhantes aos observados no autismo, mesmo que não atendam totalmente aos critérios diagnósticos para TEA”, disse a Dra. Adriana Di Martino, do Instituto Mente Infantil.
“Ao focarmos em padrões partilhados de expressão cérebro-gene ligados a sintomas de autismo tanto no TEA quanto no TDAH, podemos indicar uma base biológica comum para essas observações clínicas.”
“Nossas descobertas oferecem uma compreensão mais matizada e dimensional das condições do neurodesenvolvimento.”
A necessidade de repensar os rótulos
Um dos resultados mais interessantes apareceu em crianças que não se encaixavam por completo em nenhum dos dois rótulos.
Um grande grupo de crianças com TDAH mostrou traços fortes parecidos com os do autismo - não o suficiente para um diagnóstico, mas suficientes para interferir no dia a dia.
Essas crianças, muitas vezes, tinham mais dificuldades com habilidades sociais e com tarefas quotidianas.
Esse espaço “entre” as categorias é importante. Ele evidencia que o comportamento humano não segue limites rígidos: ele se distribui ao longo de um espectro.
O estudo convida a repensar algo básico. Em vez de forçar crianças a caberem em caixas, talvez seja melhor mapear com mais cuidado as forças e os desafios de cada uma.
Autismo e TDAH estão conectados
Essa mudança de perspectiva pode transformar a forma como o apoio é oferecido às crianças, porque o foco passa a ser o cérebro e as necessidades singulares de cada uma - e não apenas um diagnóstico.
Algumas crianças podem precisar de ajuda para manter o foco; outras, para lidar com a interacção social; e algumas podem precisar de suporte nas duas áreas. Essa abordagem torna o cuidado mais personalizado, mais preciso e mais humano.
Autismo e TDAH podem parecer caminhos separados. Por baixo, porém, esses caminhos podem se encontrar.
O cérebro não se guia por categorias arrumadinhas. Ele cria redes, se adapta e muda do seu próprio jeito. Entender isso muda tudo.
Assim, a atenção sai dos rótulos e vai para a compreensão das pessoas, trocando categorias rígidas por um cuidado mais atento e trazendo mais clareza sobre como essas condições são interpretadas.
E, acima de tudo, isso nos aproxima mais um passo de ajudar cada criança a crescer de um modo que realmente combine com quem ela é.
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