A perda de biodiversidade precisa ser travada até 2030 para manter estáveis os sistemas de suporte à vida do planeta, aponta uma nova pesquisa.
Ao avaliar espécies, ecossistemas e os processos naturais que transportam água e nutrientes, o estudo reconhece que há um risco embutido justamente nos sistemas dos quais as pessoas dependem todos os dias.
Harvey Locke, da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), defende que os sistemas ainda intactos precisam permanecer íntegros antes que novos danos ultrapassem qualquer possibilidade realista de recuperação.
A restauração continua a fazer parte da resposta, mas o artigo deixa claro que muitos lugares degradados se recuperam devagar demais para repor aquilo que as perdas no curto prazo eliminariam.
Os anos até 2030 funcionarão como uma prova decisiva para colocar soluções de pé.
Prevenção da perda de biodiversidade, não apenas reparo
A ideia central é a Natureza Positiva: interromper e reverter a perda da natureza antes que o estrago de hoje se torne o novo “normal”.
Atualmente, 54% das ecorregiões do mundo estão severamente degradadas. Como apenas cerca de um quarto permanece em grande medida intacto, a equipa da IUCN coloca a prevenção à frente da restauração.
“Temos de agir agora para travar e reverter a perda da natureza até 2030, rumo a um futuro integrado, equitativo, de Natureza Positiva e neutro em carbono”, disse Locke.
O custo de interromper os fluxos
A água perde o seu padrão vivo quando barragens, desvios e poluição interrompem a hidrologia - o movimento da água pelas paisagens.
Apenas cerca de um terço dos rios mais longos do mundo ainda corre livremente, da nascente até o mar.
Quando o fluxo de água, o transporte de sedimentos e os ciclos de cheias mudam, as zonas húmidas começam a secar e os peixes perdem as rotas de migração. Mais abaixo, as zonas costeiras ficam sem o material de que precisam para se manterem coesas.
Por isso, o movimento da água deve estar dentro das próprias iniciativas de biodiversidade, e não apenas ao lado de outro plano de conservação.
O alcance invisível das florestas
Longe do leito dos rios, grandes florestas também ajudam a “fabricar” a chuva de que a agricultura e as cidades dependem.
Em toda a Amazónia, a perda florestal enfraquece o motor da floresta tropical que recicla humidade e envia chuva para além das suas fronteiras.
O tempo é decisivo: quando desaparece cobertura suficiente, a secura pode alimentar mais fogo, mais mortalidade de árvores e ainda menos chuva.
Para além dos mapas de conservação, a redução das chuvas pode prejudicar lavouras e abastecimento de água a centenas de quilómetros de distância.
Riscos para a saúde associados à perda de habitat
Habitats fragmentados alteram quem encontra quem - e isso pode mudar quais microrganismos circulam.
Com florestas partidas em pedaços, vida selvagem, animais de criação e pessoas passam a interagir com mais frequência, aumentando o risco de spillover.
Neste contexto, spillover refere-se a patógenos que saltam entre espécies, e habitats perturbados podem criar mais oportunidades para esse salto.
A perda de paisagens familiares também traz pressão mental, ampliando o argumento de saúde para além da infeção e alcançando identidade comunitária e sensação de segurança.
Lacunas que ainda permanecem nas políticas
Em 2022, governos fixaram um prazo até 2030, por meio do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, para travar a perda da natureza.
Como pacto global de biodiversidade, ele dá atenção insuficiente à migração, ao fluxo de água e a outros processos naturais.
No papel, espécies podem parecer protegidas enquanto o sistema mais amplo que sustenta chuva, reprodução ou deslocamento continua a falhar.
Fechar essa lacuna aproximaria a política de biodiversidade das agendas de clima, oceanos, água doce e desenvolvimento humano.
Mapear pressão humana e impacto
Em vez de aplicar uma regra única a todas as paisagens, os pesquisadores classificam os lugares conforme o grau em que foram afetados pela presença humana.
A Estrutura das Três Condições Globais, um mapa de pressão humana elaborado pela equipa, separa grandes áreas selvagens, terras partilhadas e zonas de cidades e agricultura.
Daí surgem prioridades diretas: proteger o que ainda está intacto, recuperar o que está quebrado e gerir com mais cuidado as paisagens produtivas.
Como a natureza importa em todo o lado, a estrutura rejeita o hábito confortável de tratar o dano num lugar como se fosse problema de outra pessoa.
Conhecimento de comunidades indígenas e locais
Uma paisagem viva também carrega conhecimento construído a partir de uso prolongado, observação próxima e responsabilidade com o lugar.
Ao aprender com saberes indígenas e locais, além da pesquisa formal, os autores defendem que responsabilidade e observação devem caminhar juntas.
Na prática, comunidades frequentemente percebem mudanças na água, no deslocamento da fauna e na sazonalidade antes de instituições distantes.
Dessa lógica decorre uma governança mais justa, já que a conservação tende a fracassar quando as pessoas que convivem com ela têm pouco poder.
As lições económicas da natureza
O dinheiro entra nessa discussão porque as economias ainda tratam sistemas vivos como simples pano de fundo, e não como infraestrutura essencial.
Enquanto esse ponto cego persistir, atividades destrutivas continuam a ser rentáveis, e serviços como água limpa e polinização seguem subcontabilizados.
“Muitas vezes a biodiversidade é vista como um luxo ‘bom de ter’, que fica em segundo plano perante as chamadas preocupações do ‘mundo real’ com a economia e o desenvolvimento humano”, disse Locke.
Para governos e empresas, a mensagem é direta: produção e finanças precisam recompensar escolhas de natureza positiva - e não escolhas de natureza negativa.
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