Poucos quilómetros antes dos limites de Paris começa a surpreendente trajetória residencial de Pierre Perret: do HLM em Gennevilliers a uma antiga fazenda transformada em villa familiar em Nangis, embalada por um sucesso mundial e por um grande amor.
Pierre Perret: do HLM ao hit - os anos em Gennevilliers
Antes de o nome aparecer em cartazes, Pierre Perret vivia com a esposa Rebecca e os filhos Anne, Alain e Julie num simples conjunto habitacional (HLM) em Gennevilliers, a noroeste de Paris. O aluguel era barato, as paredes deixavam passar todo o barulho e o dinheiro mal dava. Era o retrato típico dos subúrbios nos anos 1960: trabalho, crianças, metrô, uma sacada pequena - e muita música tocando na cozinha.
Foi nesse cenário que nasceu uma melodia que, por pouco, não acabou esquecida numa gaveta. Perret desenvolvia a ideia em casa, sem certeza de que valia a pena. Ao relembrar aquele período, ele conta que encarava a melodia como uma brincadeira íntima, nada que tivesse “cara” de rádio. Rebecca, recém-chegada do trabalho, é a primeira pessoa a ouvi-la.
"No apartamento de Gennevilliers acontece a verdadeira decisão sobre “Les Jolies colonies de vacances” - não no estúdio, mas entre o corredor e a mesa da sala."
Rebecca percebe de imediato o potencial. Para ela, estava evidente que aquela sátira sobre colônias de férias poderia encontrar público muito além das paredes apertadas do apartamento. Ela insiste para que ele termine a canção. Em 1966, sai “Les Jolies colonies de vacances” - e o resultado é um enorme sucesso na França. A música rende aplausos, sim, mas principalmente traz liberdade financeira.
Com isso, encerra-se a fase no HLM de Gennevilliers. Aquilo que, para tanta gente, não passa de um endereço periférico vira símbolo para Perret: é ali que a carreira começa a se sustentar de verdade, e é ali que ele se despede do hábito de contar moedas no fim do mês.
Um sítio vira villa de família: a chegada a Nangis
Com o sucesso garantido, a família passa a procurar um lugar com mais ar e mais espaço do que o apartamento no subúrbio. A escolha recai sobre uma grande propriedade agrícola, um tanto degradada, em Nangis, no departamento de Seine-et-Marne, a cerca de 1h30 a leste de Paris. Não era uma residência sofisticada, e sim uma fazenda antiga de verdade: pátio, estábulos, celeiro, terreno irregular - e trabalho de sobra.
Em vez de comprar uma casa “pronta”, Perret opta deliberadamente por um projeto. Aos poucos, os edifícios são reformados, ampliados e adaptados. Ao longo dos anos, o conjunto rural vira uma ampla villa para a família. A transformação acompanha o próprio percurso do artista: nada cai do céu; tudo se constrói devagar, pedra por pedra.
- Estrutura original: antiga sede rural com estábulos
- Obra: reforma e ampliação em etapas
- Resultado: casa espaçosa, com lugar para família e amigos
- Área externa: jardim, proximidade de mata e um lago ao alcance
A nova propriedade também expressa uma relação mais segura com sucesso e dinheiro. Em entrevistas, Perret afirma não ver motivo para sentir vergonha de ganhar bem. Ele trabalha, faz shows, vende discos - e, com o que recebe, não compra um carro esportivo; compra uma fazenda e a transforma num lar vivo.
"A fazenda de Nangis vira símbolo de uma carreira alimentada por cachês, não por heranças - e o resultado visível de décadas de trabalho no palco."
Conforto com humor: piscina, quadra de tênis, refúgio
Com o passar do tempo, a propriedade cresce e se torna um verdadeiro “universo” de lazer. O que era rústico se converte num refúgio confortável, com sinais típicos de prosperidade conquistada. Entre eles:
| Elemento | Papel no dia a dia de Perret |
|---|---|
| Piscina aquecida | Ponto de encontro de família e convidados, símbolo de prazer compartilhado |
| Quadra de tênis | Movimento e equilíbrio frente ao trabalho no estúdio e na escrita |
| Dependência (dépendance) | Espaço para amigos, família ou trabalho criativo |
Perret fala da piscina com o humor que lhe é característico. Ele comenta, em essência, que não a mandou construir para si, mas “para que os outros possam pular dentro”. Por trás da piada há um princípio que muitos próximos confirmam: o que ele tem é para dividir. O sítio não funciona como propriedade isolada, e sim como lugar de convivência.
Um lugar silencioso para luto e memória
Aos 91 anos, Perret olha para trás e vê uma vida longa ao lado de Rebecca. Dois meses após a morte dela, a casa em Nangis deixa de parecer apenas uma recompensa do sucesso e passa a ser um cofre de lembranças compartilhadas. Cada cômodo adaptado, cada parede, cada árvore no jardim carrega escolhas e marcas dos dois.
A localização rural - longe de Paris e longe do ritmo acelerado do setor - também o ajuda a se aquietar por dentro. Ele vive ali sem vizinhos imediatos, cercado por mata e com um lago próximo. O ambiente impõe um compasso mais lento do que a agenda de turnês de um artista.
"A fazenda, antes símbolo de recomeço, vira na velhice o lugar onde Perret pode ficar sozinho consigo, com seus textos e com a memória de Rebecca."
Em entrevistas, ele conta que, nesse contexto, cenas antigas voltam com força: as primeiras turnês, as crianças correndo no jardim, discussões sobre letras, brigas, reconciliações - todo o cotidiano, desarrumado e real, de uma família de artistas.
Nangis como laboratório criativo
Além do peso emocional, a propriedade cumpre outra função: serve como laboratório de criação. O silêncio favorece a escrita. Sem telefone tocando o tempo todo e sem compromissos urbanos, ele consegue deixar os pensamentos amadurecerem por mais tempo. Caminhadas pela mata ou ao redor do lago trazem imagens e motivos que acabam migrando para letras novas.
Por que refúgios rurais costumam fazer bem a artistas
A trajetória de Perret se encaixa num padrão visto em muitos criadores. Morar um pouco fora do centro oferece vários efeitos simultâneos:
- Distância da “cena”, mas com Paris ainda acessível quando há ensaios ou gravações
- Menos ruído e distrações, o que tende a aumentar a concentração para escrever
- Mais espaço para instrumentos, cantos de estúdio e arquivos, sem os custos de aluguel típicos da metrópole
- Possibilidade de hospedar amigos e colegas por vários dias
No caso de Perret, soma-se ainda o fato de ter passado muitos anos na mesma casa. Quem permanece tanto tempo num único lugar não acumula apenas móveis, mas também climas, cheiros e rotinas. Essa profundidade pode aparecer nas canções, mesmo quando não é citada de forma explícita.
O que a trajetória de Perret sugere para quem ganha “normal”
Para muita gente, a passagem do HLM para uma villa no campo parece um sonho inalcançável. Ainda assim, a história permite extrair ideias práticas que funcionam mesmo sem uma carreira no chanson:
- Expansão por etapas: em vez de buscar a casa perfeita, dá para comprar um imóvel-base sólido e melhorar ao longo dos anos.
- Escolha consciente de localização: morar a 60–90 minutos de uma grande cidade costuma reduzir preços e ampliar a oferta de espaço.
- Uso compartilhado: uma casa pesa menos no orçamento quando quarto de hóspedes, edícula ou ateliê são planejados para uso combinado.
- Trabalho como alavanca, não como desculpa: Perret transforma cada cachê em avanço concreto no projeto, em vez de converter sucesso em consumo passageiro.
Quem hoje tenta seguir caminho semelhante provavelmente precisa de mais capital inicial do que nos anos 1960, mas ainda pode se beneficiar da lógica central: priorizar qualidade de moradia e projetos de longo prazo, e não símbolos rápidos de status.
Riscos e lados menos glamourosos de um refúgio no campo
A narrativa romântica de uma fazenda com piscina também tem custos. Um imóvel como o de Nangis exige gastos contínuos com manutenção, aquecimento e cuidados diários. Com a idade, a própria dimensão do lugar pode virar peso: as distâncias são maiores, consertos dão mais trabalho e atendimento médico não fica na esquina.
Para artistas existe ainda outro risco: afastar-se demais do circuito pode significar perder visibilidade. Para um nome consolidado como Perret isso pesa menos; para quem está começando, pode ser decisivo. Encontrar a distância certa da cidade continua sendo um exercício de equilíbrio.
O que fica de Gennevilliers a Nangis?
Ao olhar a “carreira de moradia” de Perret, forma-se um arco nítido: o apartamento apertado em Gennevilliers, onde um sucesso mundial quase ficou pelo caminho; a decisão arriscada de comprar uma fazenda antiga; os anos de reformas até que o espaço virasse um refúgio familiar; e, por fim, um artista de 91 anos vivendo ali com lembranças, escrita e luto.
Assim, a história não fala apenas de chanson francesa - fala do valor dos lugares. Um apartamento na borda de Paris e uma fazenda na província se tornam coadjuvantes silenciosos na vida de um homem cujas canções muitos franceses sabem de cor, e cuja casa sempre esteve alguns quilómetros longe do centro dos holofotes.
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