Mudanças mais rígidas nas metas climáticas buscam evitar que a Terra aqueça a níveis perigosos. Ao mesmo tempo, cientistas alertam: essas mesmas medidas podem encarecer a comida e empurrar milhões de pessoas para a beira da fome. Novas análises indicam agora que um fator muitas vezes ignorado ajuda a compensar parte do prejuízo - com ar mais limpo, as lavouras podem produzir bem mais.
Como a proteção do clima pode, sem querer, aumentar a fome
Para limitar o aquecimento global a 1,5°C, muitos cenários apostam pesado em bioenergia e em programas de reflorestamento em grande escala. À primeira vista, parece uma estratégia sensata - mas há um problema: ambas exigem terra, justamente as mesmas áreas onde hoje se produz alimento.
Quando áreas são destinadas a reflorestamento ou a enormes plantações de culturas energéticas para biocombustíveis, sobra menos espaço para trigo, arroz e hortaliças. Com isso, a oferta de alimentos no mercado global diminui.
Além disso, entra em cena a precificação do CO₂. Quem usa carvão, petróleo ou gás passa a pagar mais. Na agricultura, esse custo aparece em várias frentes:
- Fertilizantes ficam mais caros, porque a produção consome muita energia.
- Tratores, colheitadeiras e sistemas de irrigação passam a gerar despesas maiores.
- Transporte e processamento dos alimentos pesam mais no orçamento.
Com custos de produção em alta, os preços chegam ao consumidor: a comida encarece, famílias pobres conseguem comprar menos. Em especial onde muita gente já vive no limite, o total de calorias disponível deixa de ser suficiente.
Números de modelos globais: 56 milhões de pessoas a mais em risco
Um grupo internacional de pesquisa simulou esse conflito com seis modelos globais de agricultura e economia. Os resultados foram publicados na revista científica Nature Food.
"Sem medidas de compensação, estratégias climáticas no caminho de 1,5°C podem colocar, até 2050, cerca de 56 milhões de pessoas adicionais em risco agudo de fome - um aumento de aproximadamente 17% em comparação com um cenário sem política climática rigorosa."
O ponto crítico é o seguinte: nesse cenário de referência - que considera um desenvolvimento económico moderado - a quantidade de pessoas em situação de fome deveria cair bastante, de cerca de 720 milhões hoje para aproximadamente 330 milhões até meados do século. Uma política climática que ignore a segurança alimentar reduziria de forma significativa esse avanço.
Veneno no ar: por que o ozônio destrói colheitas
No meio desse quadro preocupante, surge um possível alívio que tem pouco a ver com dinheiro e muito a ver com química do ar. Perto do solo, o ozônio funciona como um veneno invisível para as plantas.
Ele se forma quando substâncias precursoras, como metano e óxidos de nitrogénio, reagem na atmosfera sob luz solar. Quando o ozônio entra pelas folhas, ataca células, atrapalha processos metabólicos e impede que a planta converta toda a energia em crescimento e formação de grãos.
Alimentos básicos que reagem de forma especialmente sensível incluem:
- Trigo
- Arroz
- Milho
Quanto maior a carga de ozônio, maior a queda nos rendimentos. E os agricultores não conseguem simplesmente “compensar” isso com mais fertilizante ou mais irrigação, porque o dano ocorre diretamente no tecido das folhas.
Menos emissões, menos ozônio e mais produtividade agrícola
Na prática, proteger o clima significa: reduzir emissões de metano e cortar óxidos de nitrogénio provenientes do transporte, da indústria e da agricultura. São justamente esses compostos que, no fim do processo, levam à formação do ozônio que prejudica as plantas.
Assim, quando países diminuem gases de efeito estufa, não apenas limitam o aquecimento - como também, ao longo do tempo, reduzem a concentração de ozônio perto do solo. As plantas “respiram” melhor, direcionam mais energia para crescimento e produção de sementes, e as colheitas aumentam.
"Segundo os novos cálculos, o ganho de produtividade por queda do ozônio compensa cerca de 15% do risco adicional de fome provocado por políticas climáticas rigorosas - o que equivale a aproximadamente 8,4 milhões de pessoas a menos fortemente ameaçadas em 2050."
Pesquisas anteriores sobre política climática e segurança alimentar, na maioria dos casos, não contabilizavam esse efeito da melhoria da qualidade do ar. Com isso, acabavam por superestimar o aumento da fome. A nova análise incorpora, de forma sistemática, o quanto ar mais limpo pode estabilizar a produção agrícola.
Índia e África subsaariana têm ganhos mais fortes
Os benefícios não aparecem de maneira uniforme. Duas regiões se destacam com clareza: a Índia e a África subsaariana.
Nesses locais, já vive uma grande parcela de pessoas que frequentemente consomem menos calorias do que o necessário. É justamente ali que a redução do ozônio tem maior impacto.
- Índia: a melhoria do ar reduz o efeito negativo da política climática sobre a alimentação em cerca de 39%. O motivo central é que o trigo, base importante da dieta, responde de forma muito forte à queda do ozônio.
- África subsaariana: o alívio é bem menor, em torno de 8%. Na região, predominam culturas como milho e soja, menos sensíveis à redução do ozônio.
Apesar dessas vantagens regionais, a maior parte dos modelos aponta a mesma direção: a simples redução de emissões não basta para diminuir o risco de fome - em muitos cenários, ele até cresce. Ar limpo ajuda, mas compensa apenas parte do problema.
O que a política climática precisa ajustar para encher pratos, não esvaziá-los
Os pesquisadores defendem que a segurança alimentar deve entrar nos planos climáticos desde o início - e não como correção tardia. Quem olha apenas para toneladas de CO₂ pode acabar ignorando pratos vazios.
"No essencial, trata-se de integrar ação climática e política alimentar, em vez de colocá-las em conflito."
Três alavancas para garantir mais comida mesmo com metas climáticas rígidas
Existem vários caminhos para manter metas climáticas ambiciosas sem transformar isso em escassez alimentar:
Aumentar a produtividade de forma sustentável
Com variedades mais resistentes, adubação de precisão, irrigação melhor e tecnologias digitais, produtores podem elevar a produção por hectare sem, necessariamente, expandir a área cultivada.Planejar melhor o uso da terra
Projetos de reflorestamento deveriam priorizar solos degradados ou áreas pouco adequadas à agricultura. Ao mesmo tempo, são necessários limites claros para o cultivo de plantas energéticas, para que elas não concorram diretamente com a produção de alimentos.Reduzir perdas e desperdício de alimentos
Uma fatia relevante do que se produz estraga entre o campo e o prato - por falta de refrigeração, armazenamento precário ou desperdício no comércio e nas casas. Cada tonelada de desperdício evitada alivia a pressão sobre a terra e sobre o bolso do consumidor.
O que significam alguns termos - explicação rápida
Alguns conceitos aparecem o tempo todo nessa discussão e podem confundir:
- Meta de 1,5°C: diretriz política e científica que propõe limitar, tanto quanto possível, o aumento médio da temperatura global a 1,5°C em relação ao período pré-industrial. Muitos cenários climáticos são construídos com base nessa meta.
- Bioenergia: energia gerada a partir de fontes renováveis, como milho, colza (canola) ou madeira. Substitui combustíveis fósseis, mas ocupa área agrícola.
- Ozônio troposférico: ozônio próximo ao solo, que prejudica plantas, pessoas e animais. É diferente do ozônio na estratosfera, que protege ao filtrar a radiação UV do Sol.
- Modelo agroeconômico: modelo de simulação que representa agricultura, comércio, preços e consumo em escala global, para estimar efeitos de decisões políticas.
Exemplos práticos: como ar limpo chega ao campo
O que parece abstrato em modelos globais tem consequências bem concretas no terreno. Se, por exemplo, um país reduz emissões de metano na extração de petróleo e gás ou em aterros mal cobertos, a qualidade do ar frequentemente melhora em poucos anos. Agricultores talvez não percebam isso pela cor do céu, mas sentem na maior estabilidade das colheitas.
Um agricultor do norte da Índia que, ano após ano, teme pela colheita de trigo, ganha em dose dupla quando o ar fica mais limpo: com menos ozônio, a planta sofre menos; e, ao mesmo tempo, muitas vezes cai a carga de material particulado fino, que também pode prejudicar a fotossíntese. Em muitas famílias, poucos pontos percentuais a mais de produção por hectare definem se, no fim do mês, sobra dinheiro para livros escolares ou medicamentos.
Em áreas urbanas, um limite mais rígido de emissões para veículos pode parecer, de início, apenas uma medida ambiental. Porém, olhando com atenção, fica claro: menos óxidos de nitrogénio nos escapamentos também significam menos formação de ozônio no campo. Quem mede a política climática só pelo preço do combustível ou do aquecimento subestima o efeito sobre lavouras a centenas de quilómetros de distância.
Olhar adiante: integrar clima, alimentação e saúde
O estudo sugere que ação climática vai além de evitar ondas de calor, secas e inundações. Cada tonelada de metano ou de óxidos de nitrogénio que deixa de ir para a atmosfera também protege colheitas - e, com elas, meios de vida. Ao mesmo tempo, o trabalho reforça que política climática não deve ser tratada como uma conta puramente técnica de CO₂.
Para pensar no longo prazo, são necessárias estratégias integradas: menos emissões, apoio direcionado a agricultores em países mais pobres, uma forma diferente de lidar com alimentos em países ricos e um debate sóbrio sobre quanto território pode ser destinado a florestas, culturas energéticas e produção de comida. Assim, o combate ao aquecimento global pode não apenas arrefecer o planeta, como também alimentar milhões de pessoas.
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