Pequim está a investir centenas de milhares de milhões de euros em novas linhas de transmissão de energia, sistemas de armazenamento e nós da rede. A lógica por trás disso é direta: reduzir a dependência de importações de petróleo e gás e migrar para um sistema elétrico dominado por vento, sol e hidrelétrica. A escala desta transformação é sem precedentes - do ponto de vista técnico, financeiro e político.
Por que a China passou a priorizar eletricidade em vez de petróleo
A China é o maior consumidor de energia do planeta e, ao mesmo tempo, mantém forte dependência de petróleo e gás vindos do exterior. Navios-tanque que partem do Médio Oriente e de outras regiões abastecem as refinarias localizadas no litoral. Qualquer instabilidade no Mar Vermelho, no Golfo Pérsico ou no Estreito de Malaca pode atingir o país.
"O plano de Pequim: uma rede elétrica gigantesca e altamente eficiente deve tornar as importações fósseis desnecessárias, passo a passo."
Para colocar isso de pé, o governo trabalha com três alavancas principais:
- expansão em larga escala de parques eólicos e solares em áreas remotas
- construção de um “super-rede” nacional com linhas de capacidade extrema
- integração do sistema elétrico com eletromobilidade e armazenamento
A proposta é gerar eletricidade onde o vento sopra com mais força e onde a radiação solar é mais intensa - e, depois, enviar essa energia por milhares de quilómetros até as megacidades na costa leste. Em paralelo, a meta é eletrificar consumo e processos: carros elétricos, bombas de calor e operações industriais deverão passar a depender cada vez mais de eletricidade.
Ultra-alta tensão na rede elétrica chinesa: “autoestradas” de energia de ponta a ponta
O núcleo do projeto são linhas de alta e ultra-alta tensão. Entram aí corredores em corrente contínua e em corrente alternada, desenhados para transportar eletricidade por distâncias enormes com perdas relativamente baixas.
Pelos planos atuais, até 2030 devem entrar em operação 15 novas linhas desse tipo. Elas vão ligar, entre outros pontos:
- parques eólicos nas estepes do noroeste da China
- campos solares gigantescos em regiões desérticas
- centrais hidrelétricas no interior do país
- centros industriais e cidades com milhões de habitantes no leste
Na prática, essas estruturas funcionam como “autoestradas” de eletricidade: poucos corredores, porém muito potentes, levam gigawatts de energia de uma região para outra. Para Pequim, trata-se da infraestrutura decisiva da transição energética.
Oportunidade técnica - e risco logístico
No papel, o conceito é coerente; na execução, ele é exigente. A energia renovável nem sempre aparece no momento exato em que fábricas e residências precisam dela. Nuvens, ausência de vento e o ciclo diário da geração criam variações inevitáveis.
Para manter a estabilidade da rede, a China precisa de:
- tecnologias de armazenamento, como hidroelétricas reversíveis (bombeamento), baterias ou power-to-gas
- centrais a gás flexíveis e outras usinas de compensação (regulação)
- controlo digital capaz de equilibrar, continuamente, oferta e procura
Hoje, parte das novas linhas e dos sistemas de armazenamento não opera no máximo. Em certos períodos, trechos da infraestrutura ficam ociosos porque faltam ligações à rede, projetos atrasam ou operadores não chegam a acordo sobre tarifas de injeção. É aí que surge um dos principais pontos de incerteza.
Estatais constroem uma rede em escala recorde
Quem ocupa posição central na expansão é a State Grid Corporation, um dos maiores operadores de rede elétrica do mundo. A empresa já atende mais de mil milhões de pessoas e cobre mais de 80% do território nacional.
Em conjunto com a China Southern Power Grid, a State Grid pretende elevar a capacidade de transmissão inter-regional em cerca de 35% até 2025. Ao mesmo tempo, a cada ano devem ser adicionados aproximadamente 200 gigawatts de nova capacidade eólica e solar - algo, em termos gerais, equivalente à potência total instalada de geração de um grande país europeu por ano.
"Apesar do boom de vento e sol, cerca de 60% da eletricidade chinesa ainda vem do carvão."
Os números deixam claro: a reconversão já começou, mas a base fóssil permanece enorme. Muitas centrais a carvão são relativamente novas, ainda não foram totalmente amortizadas e, em caso de dúvida, tendem a operar mais alguns anos - em vez de serem desativadas antes do tempo.
630 mil milhões de euros: como a China financia a ofensiva elétrica
O volume financeiro do programa ultrapassa quase tudo o que se viu até aqui no setor energético. Nos próximos cinco anos, a previsão é direcionar cerca de 630 mil milhões de euros, em todo o país, para linhas, subestações, armazenamento e tecnologias digitais.
Sozinha, a State Grid projeta investir por volta de 504 mil milhões de euros entre 2026 e 2030. Isso representa um aumento de cerca de 40% face ao plano quinquenal anterior. Para viabilizar esse salto, o grupo recorre intensamente ao mercado de capitais doméstico e emite obrigações.
Para 2025, já foram colocadas obrigações internas num montante aproximado de 95,1 mil milhões de euros - quase o triplo do ano anterior. Valores desse tamanho só se sustentam porque o Estado atua como retaguarda e os investidores assumem que Pequim apoiaria o projeto, se necessário.
Dívida e utilização da capacidade: uma ameaça dupla
O outro lado da moeda é evidente: se a infraestrutura não for bem utilizada por um período prolongado, a dívida cresce sem que as receitas acompanhem - e é exatamente esse o risco que até especialistas chineses em energia já começam a apontar.
- linhas subutilizadas reduzem a rentabilidade
- custos fixos elevados pressionam as tarifas de eletricidade
- municípios e províncias frequentemente seguem interesses próprios e travam projetos
Para Pequim, trata-se de um exercício de equilíbrio. De um lado, a expansão precisa avançar depressa para diminuir a dependência energética externa. De outro, existe o perigo de excesso de infraestrutura - difícil de sustentar do ponto de vista económico.
Carros elétricos como peça do novo sistema energético
Uma parte importante do plano acontece nas ruas. A China já é o maior mercado de carros elétricos do mundo. Milhões de veículos estão ligados à tomada - e, cada vez mais, são vistos como consumidores flexíveis dentro da rede.
A proposta é simples: os carros elétricos devem carregar sobretudo quando houver muita geração solar ou eólica disponível. Com tecnologias como o carregamento bidirecional, no futuro eles poderiam até devolver energia à rede por períodos curtos, amortecendo picos de demanda.
Assim, forma-se um ciclo:
- usinas renováveis fornecem eletricidade com variações
- a super-rede distribui essa energia pelo país
- armazenamento e carros elétricos absorvem excedentes
- quando há escassez, eles ajudam a garantir o abastecimento
Em teoria, isso pode reduzir de forma significativa a necessidade de petróleo no transporte e, ao mesmo tempo, contribuir para a estabilidade da rede. Na prática, ainda faltam padrões técnicos, modelos de negócio e incentivos para que motoristas realmente disponibilizem a bateria.
O que esta transformação significa para o resto do mundo
A ofensiva elétrica chinesa transborda as fronteiras nacionais. A procura gigantesca por cabos, transformadores, inversores e tecnologia de armazenamento acelera uma cadeia industrial inteira. Fabricantes chineses, com esses produtos, avançam cada vez mais sobre mercados internacionais.
Ao mesmo tempo, há um recado político: quem consegue operar uma rede elétrica desse tamanho com energias renováveis altera o equilíbrio de poder nos mercados globais de energia. Quanto menos petróleo e gás a China importar, mais desconforto tende a crescer entre exportadores tradicionais.
Para a Europa - e em particular para a Alemanha - observar a China traz dois aprendizados:
- sem linhas de transmissão fortes entre regiões, a expansão de fontes renováveis perde eficácia
- financiamento e taxa de utilização de grandes redes devem ser pensados em conjunto desde o início
Conceitos e riscos, em termos diretos
A expressão “super-rede” descreve um sistema elétrico superior que interliga várias redes regionais e eleva a gestão, a comercialização e a segurança a um novo patamar. Do ponto de vista técnico, é complexo; politicamente, ainda mais - cada região teme perder influência.
Além disso, existem riscos técnicos: longas “autoestradas” de eletricidade ficam expostas a falhas, ciberataques e eventos climáticos extremos. Se um corredor central cair, áreas extensas do país podem ser afetadas. Por isso, os operadores investem paralelamente em monitorização, automação e capacidade de reserva.
Para consumidores na China, o resultado final pode significar duas coisas ao mesmo tempo: ar mais limpo em nível local e uma rede capaz de entregar mais energia de vento e sol - mas também preços de eletricidade influenciados por diretrizes políticas, peso da dívida e tarifas de rede. Como esse equilíbrio vai se definir será decidido nos próximos anos, tanto nos canteiros de obras das grandes linhas quanto nas salas de reunião da liderança do partido em Pequim.
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