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Combo de tirzepatida e terapia hormonal da menopausa pode aumentar a perda de peso em mulheres mais velhas

Médica consulta paciente idosa e ambas observam gráfico em tablet sobre mesa de clínica médica iluminada.

Cientistas identificaram uma combinação de medicamentos que pode aumentar o efeito de tratamentos populares para emagrecimento em mulheres mais velhas.

Resultados do estudo com tirzepatida e terapia hormonal da menopausa

Em um estudo pequeno e retrospectivo com mulheres que usavam diferentes doses de tirzepatida para perder peso, as participantes que também faziam terapia hormonal da menopausa apresentaram, após 15 meses de tratamento, 35 por cento mais perda de peso corporal total do que aquelas que não utilizavam hormonas.

Para realizar a análise, investigadores da Clínica Mayo e da Universidade Wayne State, nos EUA, reuniram dados de saúde de 120 mulheres, em sua maioria brancas e na faixa dos 50 anos.

Entre as participantes, 80 utilizaram apenas tirzepatida para emagrecimento, enquanto 40 combinaram tirzepatida com algum tipo de terapia hormonal da menopausa. Os dados acompanharam a saúde dessas mulheres por uma média de 18 meses.

Em média, as mulheres que usaram tanto tirzepatida (um medicamento à base de GLP-1 comercializado com os nomes Zepbound ou Mounjaro) quanto terapia hormonal perderam 19.2 por cento do peso corporal inicial. Já as que tomaram apenas tirzepatida tiveram uma perda média de 14 por cento. Essa diferença de 5.2 pontos percentuais é estatisticamente significativa.

Além disso, uma proporção maior das mulheres em terapia hormonal atingiu 30 por cento ou mais de perda de peso corporal total.

Agora, os autores pretendem avançar para estudos controlados e randomizados com a combinação, para verificar se a aparente sinergia entre os medicamentos se sustenta sob avaliação rigorosa e se, de facto, está causando uma perda de peso maior.

Esses achados iniciais sobre a tirzepatida somam-se a um estudo de 2024, assinado por alguns dos mesmos investigadores da Clínica Mayo, que observou que, após 12 meses, uma proporção maior de mulheres na pós-menopausa que usavam semaglutida e terapia hormonal alcançou 10 por cento ou mais de perda de peso corporal total, em comparação com as que tomavam apenas o medicamento de GLP-1.

"A magnitude dessa diferença justifica estudos futuros que possam ajudar a esclarecer como medicamentos à base de GLP-1 para obesidade e a terapia hormonal da menopausa podem interagir", afirma a autora principal e investigadora de saúde da mulher Regina Castaneda, do Centro da Clínica Mayo.

Menopausa, sintomas e o papel da terapia hormonal

A menopausa acontece quando a menstruação cessa. Trata-se de uma transição marcante, que traz alterações amplas e mudanças hormonais profundas no corpo e no cérebro. Esse período e os seus efeitos posteriores podem desencadear diversos sintomas físicos desagradáveis, incluindo cansaço, ondas de calor, suores noturnos, sono ruim e diminuição da libido.

A terapia hormonal da menopausa pode ser utilizada para lidar com esses desafios e também pode oferecer alguma proteção contra doenças associadas à menopausa, como a osteoporose e, possivelmente, doenças cardíacas. Em geral, o medicamento é administrado em forma de comprimido, adesivo ou aplicação tópica, e o objetivo é repor parte das hormonas que o corpo deixa de produzir, como estrogénio ou progesterona.

Embora alguns estudos indiquem que a terapia de reposição hormonal na menopausa possa ajudar a evitar ganho de peso em fases mais avançadas da vida, ainda não está claro se - e de que maneira - ela poderia promover perda de peso.

A menopausa, como tema de pesquisa, historicamente recebe pouco financiamento e pouca atenção científica. Ao mesmo tempo, os medicamentos de GLP-1 formam uma classe relativamente nova, que ainda está a ser melhor compreendida.

O que já se sabe é que o ganho de peso é frequente tanto antes quanto depois da menopausa, e também aparece com frequência em pessoas com condições reprodutivas que afetam ovários e útero.

No caso da síndrome do ovário policístico, por exemplo, é mais provável que existam alterações relacionadas à insulina, o que pode aumentar o risco de diabetes tipo 2 e contribuir para o ganho de peso.

Limitações e próximos passos para testar a hipótese

Nesta pesquisa, não houve distinção entre tipo ou dose de terapia hormonal: todas as variantes foram analisadas como um único grupo.

Em outubro de 2025, Castaneda apresentou, na Reunião Anual da Sociedade da Menopausa, os resultados mais recentes de sua equipa e o quanto ainda falta aprender.

"Milhões de mulheres lutam com ganho de peso na meia-idade, e a realidade é que não sabemos qual é a resposta", disse ela.

"Não sabemos por que estamos a observar esses resultados superiores de perda de peso em mulheres que usam tirzepatida além da terapia hormonal."

Castaneda menciona estudos iniciais em roedores, que sugeriram que tratamentos com estrogénio podem aumentar o sistema natural de sinalização de GLP-1 do corpo. No entanto, os resultados não são consistentes, e existem outras explicações possíveis, como detalha a endocrinologista e autora sénior Maria Daniela Hurtado Andrade.

"É possível que as mulheres que usavam terapia hormonal já estivessem envolvidas em comportamentos mais saudáveis", diz Hurtado Andrade, "ou que o alívio dos sintomas da menopausa tenha melhorado o sono e a qualidade de vida, tornando mais fácil manter mudanças na alimentação e na atividade física".

A única forma de ter certeza é por meio de experiências clínicas rigorosas com a combinação de medicamentos.

No futuro, segundo Hurtado Andrade, ela e a sua equipa vão realizar um ensaio clínico randomizado e controlado para avaliar se os benefícios da terapia hormonal da menopausa "se estendem além da perda de peso especificamente, se a terapia hormonal também potencializa os efeitos desses medicamentos em medidas cardiometabólicas".

"Se confirmado", argumenta ela, "este trabalho pode acelerar o desenvolvimento e a adoção de novas estratégias baseadas em evidências para reduzir esse risco para milhões de mulheres na pós-menopausa que atravessam esta fase da vida".

O estudo foi publicado na revista The Lancet Obstetrícia, Ginecologia e Saúde da Mulher.

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