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Universidade da Califórnia, Berkeley mapeia como as estações da Terra estão fora de sincronia

Pessoa aponta para globo terrestre iluminado em escritório com planta e computadores ao fundo.

Cientistas da Universidade da Califórnia, Berkeley, acompanharam as estações do nosso planeta a partir do espaço e chegaram a uma constatação inesperada: primavera, verão, inverno e outono muitas vezes não acontecem em sincronia.

Estar no mesmo hemisfério, a altitudes parecidas ou até na mesma latitude não garante que dois lugares atravessem as mudanças sazonais ao mesmo tempo.

E isso vale até para regiões vizinhas: áreas lado a lado podem seguir padrões meteorológicos e ecológicos distintos, moldando habitats próximos, porém profundamente diferentes.

Um “fuso horário” definido pela natureza

A ideia lembra a forma como os fusos horários conseguem separar dois pontos adjacentes - só que, aqui, a linha de divisão não é traçada por convenção humana, e sim pela própria natureza.

Assista ao vídeo abaixo para um resumo:

“Com frequência, a sazonalidade é vista como um ritmo simples – inverno, primavera, verão, outono – mas o nosso trabalho mostra que o calendário da natureza é muito mais complexo”, afirmou o biogeógrafo e autor principal Drew Terasaki Hart, em agosto, quando o novo mapa foi publicado.

“Isso é especialmente verdadeiro em regiões em que a forma e o timing do ciclo sazonal local típico diferem drasticamente ao longo da paisagem. Isso pode ter implicações profundas para a ecologia e a evolução nessas regiões.”

O mapa mais abrangente sobre o timing sazonal dos ecossistemas terrestres

Com base em 20 anos de dados de satélite, Terasaki Hart e a sua equipa elaboraram o que descrevem como o mapa mais completo até hoje sobre o timing das estações nos ecossistemas terrestres da Terra.

Esse novo mapa aponta regiões do globo em que os padrões sazonais estão particularmente fora de sincronia - e essas assincronias aparecem com frequência em hotspots de biodiversidade.

Provavelmente, isso não é por acaso. Uma maior variabilidade nos padrões do tempo pode gerar efeitos em cascata, capazes de incentivar uma diversidade maior dentro dos habitats.

Um exemplo: quando recursos naturais em dois habitats vizinhos ficam disponíveis em momentos diferentes do ano, isso pode influenciar a ecologia e a evolução da flora e da fauna em cada área.

Em casos extremos, pode até significar que uma espécie num habitat entra no período reprodutivo antes - ou depois - da mesma espécie no habitat ao lado, dificultando o cruzamento entre as populações.

Ao longo de muitas gerações, esse desencontro pode culminar na evolução de duas espécies totalmente separadas.

Exemplos práticos de assincronia: Arizona, climas mediterrâneos e café na Colômbia

Duas cidades do Arizona, Phoenix e Tucson, ilustram bem a ideia. Esses centros urbanos ficam a apenas 160 quilômetros (99 milhas) de distância, mas os seus ritmos climáticos anuais operam em “frequências” diferentes.

Em Tucson, o maior volume de chuva ocorre durante a estação das monções de verão. Já Phoenix concentra grande parte da chuva em janeiro - e isso desencadeia efeitos em cascata nos ecossistemas de cada cidade.

Outro padrão curioso revelado pelo mapa é que as cinco regiões do mundo com clima mediterrâneo - caracterizado por invernos amenos e chuvosos e verões quentes e secos - apresentaram ciclos de crescimento florestal que atingiram o pico cerca de dois meses depois do observado noutros ecossistemas.

Essa incongruência apareceu em locais como a Califórnia, o Chile, a África do Sul, o sul da Austrália e, claro, o Mediterrâneo.

O mapa também detalha diferenças no momento em que plantas com flores entram em floração e em que culturas agrícolas ficam prontas para a colheita.

“Ele até explica a geografia complexa das épocas de colheita do café na Colômbia – um país em que fazendas de café separadas por uma viagem de um dia atravessando montanhas podem ter ciclos reprodutivos tão fora de sincronia como se estivessem em hemisférios opostos”, disse Terasaki Hart.

Por que isso muda previsões ecológicas e modelos climáticos

Hoje, muitas previsões ecológicas ainda se apoiam em modelos simplificados das estações. Mas, para entender de facto como a crise climática vai afetar o planeta - e a nossa saúde -, é preciso considerar as variações locais, inclusive entre lugares muito próximos.

Em outubro, amostras coletadas sob o gelo marinho no Oceano Ártico Central e no Ártico Eurasiático revelaram uma comunidade de microrganismos em plena atividade, conhecida como diazotróficos não cianobacterianos (NCDs). Trata-se de bactérias que fixam nitrogênio, mas não fazem fotossíntese.

Os investigadores ainda não demonstraram que esses NCDs estão fixando nitrogênio no Ártico. Se isso se confirmar, essas formas microscópicas de vida poderão ter impacto global.

A equipa observou que as bordas do gelo marinho do Ártico tendem a concentrar mais bactérias fixadoras de nitrogênio e maior atividade de fixação. Isso sugere que, à medida que o gelo do Ártico derrete rapidamente com as mudanças climáticas, mais desses NCDs - que alimentam algas - podem proliferar, alterando a teia alimentar marinha e afetando até a atmosfera.

“Se a produção de algas aumentar, o Oceano Ártico vai absorver mais CO2 porque mais CO2 ficará ligado na biomassa das algas”, afirma o ecólogo microbiano marinho Lasse Riemann, da Universidade de Copenhague.

Para Riemann, os fixadores de nitrogênio no Ártico precisam ser incorporados em modelos climáticos futuros.

Como explica Terasaki Hart, modelos de clima ou de conservação que partem de suposições genéricas sobre as estações deixam de fora a amplitude da grande diversidade do nosso planeta.

“Nós sugerimos direções futuras empolgantes para a biologia evolutiva, a ecologia das mudanças climáticas e a pesquisa em biodiversidade, mas essa forma de olhar para o mundo tem implicações interessantes ainda mais além, como nas ciências agrícolas ou na epidemiologia”, disse Terasaki Hart.

O estudo foi publicado na Nature.

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