Na Terra, há cavernas que funcionam como refúgios para organismos capazes de viver sem luz. Partindo desse paralelo, fica a pergunta: por que Marte não poderia ter preservado uma biosfera escondida abaixo do solo?
A possibilidade de vida marciana é, hoje, um dos temas mais discutidos da astrobiologia - ainda mais desde que se sabe da existência de um enorme reservatório de água líquida sob a superfície do nosso vizinho vermelho. Embora Marte pareça um deserto pós-apocalíptico, seu subsolo é marcado por cavidades e por muitas cavernas. Para os cientistas, esses ambientes subterrâneos chamam atenção porque são, por definição, os poucos lugares onde a atmosfera marciana quase não interfere: as temperaturas tendem a ser mais amenas e estáveis, a radiação é menor e as tempestades gigantescas que varrem a superfície não chegam até lá.
Por que as cavernas de Marte podem ser “oásis” para a vida marciana
Para os especialistas, esses “oásis” podem ser os últimos locais onde a vida ainda conseguiria persistir, apesar de uma história geológica relativamente dura em Marte. Uma equipa internacional liderada pela Universidade de Shenzhen (China) acaba de identificar oito cavidades consideradas extremamente promissoras: elas exibem características geológicas muito semelhantes às encontradas na Terra e sugerem que se formaram graças ao escoamento de água líquida. Quando isso ocorre, depósitos químicos e possíveis marcas biológicas podem ficar preservados - dois dos grandes “santos graais” da astrobiologia.
Nessas cavidades, os pesquisadores detectaram a presença de diferentes elementos que apontariam para um ambiente potencialmente habitável. O trabalho sobre essas oito cavernas foi publicado em 30 de outubro na revista The Astrophysical Journal Letters. Será que a superfície de Marte é estéril, mas o subsolo ainda pode ser habitável?
Cavernas marcianas esculpidas pela água: a hipótese mais forte para explicar vida extraterrestre?
Essas estruturas ficam em Hebrus Vallis, uma região onde surgem vales e depressões típicos de uma atividade passada de fluxos de água. Os autores afirmam ter encontrado “indicadores geomorfológicos de uma antiga presença de água”, isto é, formas de relevo que apenas a água líquida consegue criar - vestígios de um ambiente húmido que já desapareceu.
Vistas pelos satélites que as detectaram, elas se assemelham a “poços de luz”: depressões circulares que costumam aparecer quando o teto de uma caverna acaba por colapsar, expondo o interior.
Outro ponto a favor do interesse científico é que elas não exibem a mesma morfologia dos colapsos vulcânicos frequentemente observados em Marte. Em vez disso, lembram cavernas “cársticas”, como as que existem na Terra - cavidades esculpidas pela água, e não pela lava.
Quando rochas solúveis (calcário, gesso ou dolomita) são atravessadas por água levemente ácida, elas vão sendo dissolvidas aos poucos, formando redes subterrâneas. Ao longo de milhões de anos, esse processo cria salões, corredores e poços, e às vezes até labirintos inteiros. Encontrar uma geomorfologia semelhante em Marte sugere que a água líquida não só circulou no subsolo, como permaneceu ali tempo suficiente para moldar a rocha, tal como acontece na Terra.
O que os dados da NASA indicam sobre minerais, sulfatos e hidrogénio
Para chegar a essas conclusões, a equipa combinou vários conjuntos de dados recolhidos por duas sondas da NASA - Mars Global Surveyor e Mars Odyssey - usadas para analisar a composição química da superfície marciana. Ao reunir esses levantamentos, os autores notaram que as áreas onde ficam esses poços tinham minerais normalmente associados à presença atual ou passada de água líquida.
Entre eles, aparecem sulfatos (materiais que costumam ser dissolvidos e depois redepositados pela água) e, sobretudo, concentrações locais de hidrogénio. Esse elemento é crucial porque muitas vezes indica que antigos depósitos de gelo ou de água ficaram enterrados sob a superfície de um planeta.
Em seguida, os pesquisadores criaram modelos 3D com base em dados orbitais, para examinar a geometria das cavidades por múltiplos ângulos. A morfologia, no conjunto, remete fortemente a cavernas terrestres moldadas pela erosão causada pela água.
Se essa interpretação estiver correta, essas cavidades em Marte podem ser os derradeiros santuários potenciais de uma biosfera marciana antiga, com assinaturas químicas, minerais ou isotópicas capazes de apontar para uma atividade biológica muito remota. Existe até a possibilidade de que essas formas de vida, caso tenham existido, nunca tenham desaparecido por completo e ainda sobrevivam em regiões ainda mais profundas.
Por que Hebrus Vallis virou prioridade para missões robóticas e humanas
Por isso, os autores consideram que essas cavernas se tornaram prioridade na busca por vida marciana e seriam “candidatas convincentes para futuras missões robóticas e humanas [Nota da redação: metas realistas para a segunda metade da década de 2030, se os programas marcianos mais otimistas mantiverem os seus calendários]”. O passo seguinte parece óbvio: é imperativo dedicar uma missão para descobrir o que existe dentro dessas cavernas e esclarecer a questão.
Por enquanto, essas cavernas continuam fora de alcance, mas elas talvez se tornem a nossa “revolução copernicana moderna”: os primeiros locais onde a humanidade poderia encontrar um vestígio biológico que tenha surgido fora da Terra.
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