Quem diria. A Ford já ocupou um lugar de enorme peso na Europa. Em 2015, por exemplo, passou de um milhão de carros vendidos no continente e ficou atrás apenas da Volkswagen no ranking das marcas que mais emplacaram. Já em 2025, o retrato mudou: foram pouco mais de 300 000 unidades, o que não levou a marca além da 14ª colocação.
Parte dessa queda pode ser atribuída à pandemia e à crise logística que veio na sequência, mas dois nomes explicam quase tudo: Fiesta e Focus. O primeiro saiu de cena em 2023 e, por muitos anos, foi o campeão de vendas da marca. O segundo teve a produção encerrada no ano passado - e sem deixar um sucessor direto.
Por décadas, esses dois modelos foram a base de sustentação da Ford. Com o fim deles, uma fatia grande do volume simplesmente desapareceu. Sem Fiesta e sem Focus, a Ford passou a depender do Puma e do Kuga para gerar escala na Europa. São produtos relevantes, especialmente o Puma, mas não bastam para manter o tamanho de presença que a marca já teve no mercado europeu.
Ao mesmo tempo, a estratégia de eletrificação, primeiro com o Mustang Mach-E e depois com a parceria com a Volkswagen, não entregou o que se esperava. Explorer e Capri chegaram com metas altas, porém ficaram bem longe do impacto comercial de que a Ford precisava.
Onde a Ford ainda manda: Ford Pro na Europa
Existe, porém, um terreno em que a Ford não só manteve como reforçou a sua importância: a divisão Ford Pro. No universo dos veículos comerciais - que inclui a picape Ranger - a marca do oval azul lidera o mercado europeu há mais de 10 anos seguidos.
Em 2025, a Ford atingiu marcas históricas tanto em volume quanto em participação: mais de 400 mil unidades e 17%, respectivamente. Na prática, hoje é mais provável cruzar com Transit e Ranger no Velho Continente do que com Puma e Kuga. É aí que está a força atual da marca e o que vem sustentando a viabilidade da montadora no mercado europeu.
Já entre os carros de passeio, os obstáculos são maiores. Além de estar ausente de segmentos considerados-chave, a Ford também enfrenta um ambiente mais competitivo, com destaque para a chegada da China. Em 2025, as marcas chinesas alcançaram 6,1% do mercado europeu - quase o dobro de 2024. Para 2026, alguns analistas projetam uma participação que pode passar de 10%.
Menos genérico, mais Ford: os próximos passos da Ford
Ainda assim, a montadora já se comprometeu a reagir. Jim Farley, CEO da Ford, deixou o objetivo explícito: voltar a investir em carros menos genéricos e reconstruir a identidade que fez de Fiesta e Focus referências.
A ideia é retomar modelos mais acessíveis, com personalidade e entre os mais gostosos de dirigir. Em outras palavras, voltar a ser Ford. Essa nova etapa já está sendo preparada, mas o caminho escolhido levanta algumas dúvidas.
O primeiro lançamento desse novo ciclo deve ser um SUV em 2027. Ele será fabricado em Valência, na Espanha, na mesma planta de onde sai o Kuga. Não será um substituto do Kuga, mas vai usar a mesma plataforma C2 e terá proposta multienergia (híbrido e elétrico). Circula a informação de que pode adotar o nome Bronco, mas terá pouco a ver com o Bronco que você está imaginando - e que nós já dirigimos. Ou seja, a briga será mais com Jeep Compass do que com Wrangler.
O que vem em seguida, em 2028, é o que gera mais interrogações. Isso porque a Ford confirmou dois novos modelos elétricos, sendo que o primeiro deve preencher o vazio deixado pelo Fiesta. Só que, nesse caso, a base não será Ford, e sim Renault: o futuro “Fiesta” vai dividir a arquitetura do Renault 5, assim como o segundo carro, um crossover que pode assumir o lugar do atual Puma elétrico.
A plataforma francesa não é um problema em si, mas a pergunta permanece: continuará sendo um Ford? Para designers e engenheiros da marca americana, diferenciar de verdade um produto assim tende a ser um desafio. Basta observar, por exemplo, o novo Nissan Micra com “costela francesa”.
Jim Farley vem insistindo que não quer mais veículos genéricos, como afirmou recentemente em entrevista ao Top Gear: “as pessoas gostavam do Focus e do Fiesta porque eram acessíveis com uma excelente condução e dinâmica. Não eram veículos aborrecidos”. Será que os próximos modelos vão conseguir entregar isso?
Só quando essa nova Ford chegar será possível responder. Uma Ford que, na Europa, deve seguir por um caminho bem linear do ponto de vista tecnológico, combinando soluções da Volkswagen, da Renault e da própria marca.
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