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Estudo europeu aponta mercúrio no atum em lata e expõe Petit Navire

Pessoa segurando lata de comida enlatada na prateleira de supermercado com cesta de frutas.

Uma nova apuração veio abalar aquela confiança tranquila.

Muita gente coloca latas de atum no carrinho no automático, como se fosse um alimento básico e sempre seguro. Só que um amplo estudo europeu, divulgado pela revista francesa “60 Millions de consommateurs”, põe essa ideia em xeque: os testes apontam contaminação relevante por mercúrio e destacam uma marca como caso particularmente preocupante.

O estudo que sacudiu o corredor do atum na Europa

A investigação que sustenta esta história começou com duas ONGs, Foodwatch e Bloom. Elas analisaram 148 latas de atum à venda em cinco países europeus. Havia de tudo: itens comuns de supermercado, marcas próprias e marcas conhecidas - um recorte que se aproxima do que as pessoas realmente compram no dia a dia.

"Conclusão principal: todas as latas testadas continham mercúrio, e uma em cada dez ultrapassou o limite legal europeu de 1 mg/kg."

A presença de mercúrio em peixes não é novidade. O que preocupa as entidades é a escala do problema e a aparente normalização de níveis elevados em um produto tão consumido. Segundo os relatos, algumas amostras chegaram a até quatro vezes o limite da União Europeia.

Entre as marcas citadas, uma ganhou destaque na cobertura francesa: Petit Navire, forte no mercado de atum em lata. Em produtos vendidos em grandes redes, como a Carrefour City, apareceram medições de até 3.9 mg/kg nos testes ressaltados pela 60 Millions de consommateurs.

Para uma marca famosa que se vende como alternativa prática para a família, os números soam como um choque. A leitura implícita na reportagem é dura: pelos dados do estudo, no quesito mercúrio, esta seria a pior escolha de atum no supermercado.

Por que o atum acaba tão contaminado

Para entender como o atum enlatado chega a essas concentrações, é preciso olhar para a cadeia alimentar marinha. O atum é um predador de topo. Ele consome muitos peixes menores que já carregam traços de mercúrio, em geral associado à poluição industrial lançada em oceanos e cursos d’água.

"Quanto mais alto o peixe está na cadeia alimentar, mais mercúrio tende a acumular ao longo da vida - um processo chamado bioacumulação."

Por isso, predadores longevos como atum, peixe-espada e algumas espécies de tubarão costumam apresentar as maiores concentrações. Já espécies menores e de ciclo de vida curto, como sardinhas ou cavalas, normalmente têm menos.

Do ponto de vista regulatório, isso é conhecido. É por esse motivo que a União Europeia permite um limite de mercúrio maior para atum e outros grandes predadores do que para a maioria dos frutos do mar. Ainda assim, essa opção vem sendo criticada com força renovada.

A Europa está subestimando o risco à saúde?

Pelas regras da UE, o atum pode ter legalmente até 1 mg de mercúrio por quilograma de carne. Esse teto é três vezes superior ao aplicado a muitos outros produtos do mar. Documentos do parlamento francês, que repercutiram o mesmo estudo, trazem uma conta simples: um adulto de 70 kg poderia comer cerca de 91 gramas de atum por semana - algo como 4.7 kg por ano - se o peixe estivesse exatamente no limite de 1 mg/kg.

Órgãos de saúde costumam se preocupar sobretudo com o metilmercúrio, a forma orgânica que se acumula nos tecidos dos peixes. A exposição prolongada, mesmo em doses baixas, pode afetar o sistema nervoso. O risco é particularmente relevante para:

  • Gestantes, porque o mercúrio pode prejudicar o desenvolvimento cerebral do feto.
  • Crianças pequenas, cujo sistema nervoso ainda está em formação.
  • Pessoas que consomem grandes quantidades de peixes predadores toda semana.

Foodwatch e Bloom defendem que o limite atual não leva em conta essas vulnerabilidades. Na visão das entidades, a régua estaria posicionada menos onde a ciência da saúde colocaria e mais onde o mercado consegue operar.

"Ativistas afirmam que um limite legal mais permissivo serve principalmente para manter a maior parte dos estoques mundiais de atum comercialmente viáveis, apesar da contaminação disseminada."

Em outras palavras: se a UE reduzisse demais o máximo permitido, enormes volumes de atum poderiam se tornar inviáveis de vender. Parlamentares, em uma resposta oficial citada na França, dizem que não há plano de pedir a Bruxelas um limite menor para atum e outros grandes predadores. Para as ONGs e para a 60 Millions de consommateurs, isso empurra para o consumidor a tarefa de administrar o risco.

As marcas na mira - e as opções com resultados menos preocupantes

O levantamento separa marcas que aparecem com frequência perto de níveis altos e outras que ficam relativamente mais baixas - embora nenhuma seja totalmente livre de mercúrio. Entre os rótulos apontados como problemáticos na cobertura francesa estão:

  • Cora
  • Carrefour Discount
  • Petit Navire
  • Saupiquet
  • Pêche Océan (marca própria em algumas redes francesas)

Na outra ponta, algumas marcas tiveram resultados mais tranquilizadores, com médias menores nas amostras avaliadas:

  • Atum de marca própria do Monoprix
  • Atum branco albacora (germon) da Casino
  • Connétable
  • Phare d’Eckmühl

De novo: todas as latas analisadas continham mercúrio. A diferença está na concentração. Na prática, isso desenha um cenário em que não existe opção “perfeita”, mas algumas escolhas parecem claramente menos arriscadas do que outras, à luz dos dados disponíveis.

O que isso muda para quem come atum toda semana

Para famílias que dependem de latas baratas como fonte de proteína, o estudo deixa uma pergunta desconfortável: qual é o excesso? Para dar uma noção de ordem de grandeza, segue uma comparação simples usando o limite legal de 1 mg/kg como referência. Os valores são ilustrativos, não uma orientação médica definitiva.

Perfil de consumidor Peso corporal aprox. Atum a 1 mg/kg: máximo semanal sugerido*
Adulto médio 70 kg ~90 g
Adolescente 50 kg ~65 g
Criança 25 kg ~30–35 g

*Com base no cálculo do parlamento francês citado no debate; órgãos de saúde de países diferentes podem recomendar ingestões menores, especialmente para gestantes e crianças.

Quem tem o hábito de comer sozinho uma lata inteira de 160 g, várias vezes por semana, pode ultrapassar com facilidade os níveis de ingestão considerados seguros nesses modelos regulatórios - sobretudo se o produto vier do grupo com maior contaminação.

"O consumo pesado e frequente de atum pode transformar um item barato da despensa em uma via de exposição crônica a um metal neurotóxico."

Como reduzir a exposição sem abrir mão de peixe

Órgãos de saúde continuam incentivando o consumo de peixe, por causa dos ácidos graxos ômega‑3, da vitamina D e da proteína de alta qualidade. O desafio é equilibrar esses benefícios com o problema da contaminação. Foodwatch, Bloom e a 60 Millions de consommateurs propõem uma mudança direta: parar de tratar o atum como escolha padrão.

Troque as espécies no prato

Peixes pequenos e de crescimento rápido tendem a apresentar menos mercúrio. Para refeições do dia a dia, nutricionistas costumam citar:

  • Sardinhas, frescas ou em conserva em óleo ou molho de tomate.
  • Cavalas, especialmente as do Atlântico ou do Mar do Norte.
  • Arenque, espadilhas e anchovas.
  • Truta ou salmão de criação de produtores responsáveis, conforme orientação local.

Ao alternar espécies, você reduz a ingestão cumulativa de mercúrio e ainda distribui a pressão de pesca entre diferentes estoques, o que pode favorecer os ecossistemas marinhos quando combinado com compras de origem sustentável.

Reavalie quem, em casa, deve comer atum

Agências de saúde na Europa e na América do Norte frequentemente recomendam limites mais rígidos para gestantes, pessoas tentando engravidar e crianças pequenas. Uma abordagem prática poderia ser:

  • Manter o atum como alimento ocasional para gestantes, em vez de item semanal.
  • Oferecer peixes alternativos para bebês e crianças pequenas na maior parte do tempo.
  • Deixar espécies de maior mercúrio, como atum ou peixe-espada, para refeições raras.

Esse tipo de gestão de risco não depende de ter dados perfeitos de cada lata. Depende de padrão de consumo: quanto menos peixes de topo trófico aparecem com frequência no prato, menor tende a ser a exposição ao longo do tempo.

Por que um escândalo francês importa para consumidores do Reino Unido e dos EUA

À primeira vista, parece uma controvérsia restrita à França: uma revista nacional de defesa do consumidor, marcas locais de supermercado, discussão na Assemblée nationale. Porém, o tema central atravessa fronteiras. A poluição por mercúrio circula pelos oceanos. Os estoques de atum migram por águas internacionais. E marcas globais - muitas vezes sob os mesmos conglomerados - vendem produtos quase idênticos em Londres, Paris ou Nova York.

Mesmo quando as regras variam um pouco, o dilema de base é parecido: quanta contaminação as autoridades aceitam para manter funcionando uma indústria global do atum? Por enquanto, a maioria dos reguladores ocidentais, incluindo a FDA e a EFSA, usa cálculos de risco semelhantes e prefere orientar o consumo de forma geral em vez de proibir espécies com maior exposição.

Para o consumidor, a apuração francesa funciona como alerta, e não apenas como susto local. Ela mostra como grupos de campanha podem pressionar reguladores e como uma marca pode virar símbolo de um problema maior. Os resultados também reforçam um princípio útil em qualquer lugar: escolher peixes menores, variar as espécies e acompanhar as orientações nacionais sobre frutos do mar pode reduzir bastante a exposição ao mercúrio sem abrir mão das vantagens nutricionais de comer peixe.

O mercúrio não vai desaparecer dos mares tão cedo. Emissões industriais, mineração artesanal de ouro e queima de carvão seguem alimentando o problema. A parte mais controlável, para as famílias, é outra: quais latas e filés entram na compra da semana - e com que frequência. Ajustes discretos nessa rotina podem pesar mais do que qualquer logotipo impresso na frente de uma lata.

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