Já vi o centro de um monstro. Muita gente diz que o som de um tornado é como o de um trem de carga, mas, de perto, parece mais mil motores a jato berrando ao mesmo tempo. Sou uma das poucas pessoas na Terra que entrou de carro em um tornado - e viveu para contar.
Isso pode soar como uma cena de blockbuster de Hollywood, com um caminhão blindado cheio de tecnologia. Só que o que eu vivi foi bem menos cinematográfico e muito mais arriscado e apavorante.
Sou cientista atmosférico e estudo tornados, mas só estou vivo hoje por causa de decisões tomadas em frações de segundo e de uma enorme dose de sorte - daquelas bem pouco inteligentes. Acredite: eu não quero passar por isso nunca mais.
O dia em que o céu se partiu
Tudo começou no noroeste do Kansas, onde eu analisava tempestades supercélulas - o tipo que costuma gerar tornados - junto de uma equipa de estudantes da Universidade de Michigan.
Ficámos posicionados sob uma tempestade tão escura que precisámos acender os faróis dos veículos em pleno dia. De repente, um tornado se formou e veio diretamente na nossa direção.
Os estudantes, em outros carros, conseguiram escapar. O meu, porém, foi rapidamente engolido por uma nuvem de destroços tão densa que eu não conseguia ver nem o próprio capô.
Com as opções se esgotando, tomei uma decisão desesperada: apontei o carro de frente para o vento, na esperança de que a aerodinâmica mantivesse o veículo “colado” ao chão, em vez de ser virado como um brinquedo.
A física do medo
Dentro do vórtice de um tornado, o seu corpo sente coisas que as câmaras de televisão não conseguem captar:
- A mudança de pressão: um tornado é uma área localizada em que a pressão muda muito rápido. Os ouvidos não apenas “estalam” - eles doem, como se a cabeça estivesse a ser apertada por mãos gigantes.
- O vento sólido: medimos velocidades de vento de quase 150 mph (241 kph) nas proximidades, mas, dentro do vórtice, elas provavelmente eram bem maiores. Nesses valores, o ar bate com a força de um objeto sólido.
- A sopa de escuridão: nos filmes, o “olho” é um espaço limpo. Na realidade, é uma bola de detritos - uma sopa castanho-escura de solo triturado, árvores e partes de construções. Estava tão escuro que a minha câmara nem sequer conseguiu registar uma imagem.
Enquanto os destroços golpeavam o para-brisa, eu tinha pavor de ser esmagado por materiais lançados no ar - tornados conseguem arrancar cercas, madeira e metal de edifícios, galhos de árvores e até vacas.
Os manuais costumam recomendar procurar uma valeta para ficar deitado, o que poderia oferecer mais proteção contra detritos voadores. Mas o vento era tão violento que eu nem conseguia abrir a porta do carro. Só me mantive o mais baixo possível e rezei.
Como nasce um monstro
Como é que uma tempestade tão severa consegue existir? É preciso uma “receita” perfeita - e violenta - de ingredientes atmosféricos:
- Combustível: um tornado precisa de ar quente e húmido (vapor de água) perto do solo, com ar seco acima. Isso cria potencial para o ar subir, mas apenas se a atmosfera estiver instável o suficiente para vencer o “tampão”.
- O tampão: uma fina camada de “inversão” de ar estável funciona como uma tampa sobre aquele ar quente e húmido, prendendo-o até que o ar húmido consiga romper.
- A linha seca: a linha seca é a zona em que o ar quente e húmido vindo do Golfo do México encontra o ar seco do oeste. O ar quente e seco que avança é, na verdade, mais pesado do que o ar abafado e húmido; ele empurra o ar húmido para cima e rompe o tampão.
- Cisalhamento do vento: ventos à superfície vindos do sul e ventos em altitude vindos do oeste criam um rolamento horizontal na atmosfera. Quando o ar é forçado a subir, essa rotação passa a ser vertical, formando o que se chama de mesociclone.
- A corrente de jato: a cerca de 5 to 7 miles (8 to 11 kilometers) de altitude, a corrente de jato é um rio de ar em alta velocidade. Perturbações dentro dela podem criar áreas que puxam o ar de baixo para cima e reduzem a pressão à superfície.
Juntos, esses elementos podem gerar o vórtice poderoso e giratório que conhecemos como tornado.
Essas tempestades podem atingir ventos de até 300 mph (482 kph) e deixar um longo rasto de destruição, às vezes com mais de a mile (1.6 kilometers) de largura.
Elas podem manter-se no chão por segundos ou por muitos minutos, destruindo edifícios e árvores pelo caminho. É difícil prever por onde vão passar; por isso, chegar a um local seguro precisa ser a prioridade.
A lição do monstro
Quando a tempestade se afastou, o silêncio foi chocante. O meu carro alugado ficou atolado na lama, a antena estava dobrada ao meio, e pedacinhos de palha ficaram cravados em absolutamente todas as junções da carroçaria.
Tornados são extremamente perigosos. Sessenta e uma pessoas morreram por tornados nos EUA em 2025, e muitas outras ficaram feridas por detritos arremessados. Certifique-se de saber o que fazer quando soar um alerta de tornado - siga as orientações do aviso e procure abrigo imediatamente.
Quando cientistas perseguem tempestades, não estão a tentar “vivenciar” tornados - estão a tentar medir processos de pequena escala dentro das tempestades que não podem ser observados de outras formas.
Muitos dos processos-chave que produzem tornados acontecem a poucos centenas de metros do solo e evoluem ao longo de minutos, o que significa que radares, satélites e estações meteorológicas frequentemente não os captam.
Ver um tornado e a destruição que ele provoca é um lembrete poderoso de que as pessoas não controlam tudo. Serve como aviso para agir com prudência e estar preparado para qualquer coisa.
Pesquisa sofisticada com drones e radar é a maneira inteligente de estudar esses monstros - vê-los por dentro definitivamente não é.
Willa Connolly, estudante da Tappan Middle School em Ann Arbor, Michigan, contribuiu para este artigo.
Perry Samson, Professor Emérito de Ciência Atmosférica, Universidade de Michigan
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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