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Natural History Museum de Londres divulga a lista final do Prémio Escolha do Público Nuveen 2026 do Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano

Lince capturando um pássaro na neve durante o pôr do sol em floresta coberta de neve.

O Natural History Museum, em Londres, tornou pública a lista final do Prémio Escolha do Público Nuveen 2026, ligado ao concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano. Entre as imagens mais comentadas estão duas cenas em que a natureza aparece sem filtros: um cervo que arrasta a cabeça em decomposição do rival derrotado e um lince que, no meio da caçada, parece transformar a presa num brinquedo.

Um duelo brutal congelado no tempo

Na fotografia intitulada “Luta Sem Fim”, o fotógrafo japonês Kohei Nagira regista a sequência sombria de uma disputa entre machos de cervo-sika. Na imagem, o veado caminha pelo terreno ainda com a cabeça decepada e as galhadas do adversário presas com força às suas próprias galhadas.

Segundo relatos, o cervo vencedor teria arrastado o corpo inteiro por dias até que, por fim, a carcaça se rompeu e se soltou, deixando apenas o crânio e as galhadas ainda presos.

De acordo com um pescador local citado junto à candidatura, o confronto começou por causa de uma fêmea no cio. O vencedor garantiu o direito de acasalamento, mas acabou pagando um preço alto: perdeu parte da capacidade de se deslocar quando as galhadas se enroscaram nas do oponente.

À medida que o corpo do animal morto se degradava, o cervo vivo continuou a circular pela sua área, puxando atrás de si o peso do rival. Só quando a carcaça apodreceu e se rasgou na região do pescoço o animal conseguiu algum alívio - embora o troféu macabro, crânio e galhadas, permanecesse firmemente encaixado.

A foto obriga o público a encarar o quanto a época reprodutiva pode ser violenta e implacável. Ao mesmo tempo, chama atenção para o paradoxo das galhadas: servem para exibição e combate, mas, quando ficam travadas, podem virar uma armadilha mortal.

Por que essas lutas podem terminar em morte

Machos de cervos, como o cervo-sika do Japão, disputam território e fêmeas avançando uns contra os outros e batendo galhadas em confrontos de empurrão. Na maior parte das vezes, um dos dois recua antes de ocorrerem ferimentos graves. Em situações mais raras, as galhadas se prendem de tal forma que os animais não conseguem se separar.

  • O par preso pode morrer por exaustão, fome ou por ataque de predadores.
  • Em alguns casos - como este sugere - um morre primeiro e o outro arrasta o corpo durante dias.
  • Em áreas remotas ou protegidas, a intervenção humana é incomum, e o desfecho fica a cargo do próprio ambiente.

Registos como “Luta Sem Fim” quase nunca são feitos porque esse tipo de evento ocorre de modo imprevisível e, muitas vezes, longe de qualquer presença humana. O resultado parece quase lendário, mas é apenas uma consequência directa da competição por acasalamento.

O lince que transformou o jantar em brincadeira

Num tom emocional bem diferente aparece “Roedor Voador”, fotografia de Josef Stefan. A imagem mostra um lince jovem em pleno movimento, atirando um pequeno roedor para o alto como se fosse um brinquedo.

As patas do predador estão estendidas, os olhos fixos na presa no ar, num instante que mistura treino de caça com algo que lembra, de forma suspeita, diversão.

O momento é encantador e, ao mesmo tempo, um pouco inquietante. Para o lince, esse comportamento tende a ser uma forma de aprendizagem: predadores jovens desenvolvem coordenação, noção de tempo e técnicas de abate ao “brincar” com animais vivos ou recém-mortos.

Para quem observa, a cena tem um efeito duplo: o roedor parece quase sem peso, enquanto o lince transmite energia concentrada. A imagem lembra que, entre carnívoros selvagens, a brincadeira não é apenas passatempo; é parte da preparação para sobreviver.

Predadores em modo de treino

Etólogos - cientistas que estudam o comportamento animal - defendem há muito tempo que a brincadeira em mamíferos jovens constrói competências essenciais para a caça. Filhotes de lince que praticam saltos e arremessos aumentam a probabilidade de capturar presas ágeis mais tarde.

Manipular a presa de forma lúdica pode:

  • Melhorar reflexos e equilíbrio.
  • Ensinar a força adequada de agarre e o local certo para a mordida.
  • Ensaiar a sequência de espreita, perseguição e captura.

A foto de Stefan comprime esse processo de aprendizagem num único enquadramento: um lançamento casual que, na prática, é uma aula sobre como conseguir alimento.

Uma votação global sobre os momentos mais marcantes da natureza

O Prémio Escolha do Público Nuveen é a vertente voltada ao grande público do concurso Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, desenvolvido e produzido pelo Natural History Museum, Londres. Ao contrário da competição principal, que é avaliada por um painel de especialistas, esta categoria permite que qualquer pessoa com acesso à internet vote.

A votação está aberta no mundo inteiro até 18 de março de 2026, e a imagem vencedora será anunciada no dia 25 de março, no museu.

A fotografia escolhida será exibida ao lado de outras 100 imagens de destaque da última edição do Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano, numa mostra em South Kensington que fica em cartaz até julho de 2026.

Na prática, a lista final do Escolha do Público funciona como um retrato do modo como as pessoas, hoje, enxergam a natureza: bela, ameaçada, por vezes delicada e frequentemente brutal. A selecção deste ano percorre desde insectos minúsculos até ursos-polares à deriva num Árctico cada vez mais quente.

Outras imagens de destaque na lista final

Embora as fotos do cervo e do lince estejam a concentrar grande parte das atenções, elas fazem parte de um conjunto amplo de cenas que expõe tanto o comportamento animal quanto a marca humana sobre os ecossistemas.

Título da imagem Assunto Tema central
Superbando em Espiral Golfinhos-rotadores levando peixes-lanterna à superfície do Pacífico Caça coordenada e ecologia oceânica
O Retrato Final Filhote de urso-polar após uma caçada sem sucesso em Svalbard Stress energético e mudanças nas condições do Árctico
Retrato da Extinção Guardas-florestais diante de uma montanha de laços apreendidos Caça ilegal, fiscalização e conservação
Beleza Contra a Fera Flamingos enquadrados por linhas de energia e indústria Fauna a viver junto de infraestrutura pesada
Singularidade Lontra leucística alimentando-se de um bagre no Brasil Traços genéticos raros e individualidade

Duas fotografias seleccionadas de ursos-polares chamam atenção pela carga emocional. Uma mostra uma mãe com três filhotes descansando sobre solo nu e lamacento no Canadá durante o calor do verão, imagem que evoca em silêncio a perda do gelo marinho. Outra, “O Retrato Final”, regista um filhote seguindo a mãe depois de uma tentativa de caça fracassada, levantando dúvidas sobre por quanto tempo grupos familiares assim conseguem resistir com a redução das fontes de alimento.

De preguiças a painéis solares

A lista final também traz instantes ternos e inesperados. Uma preguiça-de-três-dedos-de-garganta-marrom se aconchega sob a mãe em plena chuva. Um filhote de pangolim aparece enrolado num cobertor num centro de resgate na África do Sul. Um macaco-de-cauda-de-leão atravessa os Gates Ocidentais, na Índia, com o filhote agarrado com força ao seu pelo.

Até a tecnologia humana entra em cena. “Ondas Solares”, de Francesco Russo, mostra fileiras de painéis solares ondulando pelo terreno como se fossem água. Colocada ao lado de imagens de animais selvagens, a fotografia provoca a pergunta sobre como sistemas modernos de energia podem coexistir com os habitats - em vez de os substituir.

Como concursos moldam a nossa visão sobre a vida selvagem

Competições de fotografia como o Fotógrafo de Vida Selvagem do Ano não se limitam a exibir domínio técnico. Elas também orientam a forma como milhões de pessoas pensam sobre animais e ecossistemas, condensando histórias ambientais complexas num único quadro de forte impacto.

Uma única foto de um cervo preso ao corpo de um rival morto pode fixar-se na memória pública por mais tempo do que páginas de dados científicos.

Essa resposta emocional pode levar o público a procurar informação sobre comportamento reprodutivo, perda de habitat ou mudanças climáticas. Também pode incentivar doações, conversas sobre políticas públicas e escolhas pessoais ligadas a viagem, dieta ou activismo.

Ao mesmo tempo, curadores e jurados precisam agir com cuidado. Imagens excessivamente baseadas no choque podem anestesiar a audiência. Já aquelas que apresentam apenas beleza correm o risco de suavizar ameaças urgentes. A selecção actual tenta ocupar o espaço entre esses extremos: encanto, desconforto e curiosidade em proporções parecidas.

Um olhar mais atento: alguns termos e ideias explicados

Por trás dessas fotos chamativas há conceitos científicos discretos. Entendê-los acrescenta uma camada extra ao que a câmara registou.

Galhadas vs. chifres: O cervo-sika em “Luta Sem Fim” tem galhadas, não chifres. Galhadas são estruturas ósseas que caem e voltam a crescer a cada ano, em geral ficando maiores a cada ciclo até a velhice. Já os chifres - como em muitos antílopes - são permanentes e cobertos por queratina. O recrescimento anual das galhadas permite que os cervos ajustem “armas” conforme mudam os rivais, mas também cria ramificações com maior risco de se prenderem umas nas outras.

Leucismo e coloração rara: A lontra clara em “Singularidade” apresenta leucismo, condição genética que reduz o pigmento na pele e no pelo, mas não nos olhos. Não é o mesmo que albinismo e pode tornar o animal mais visível para predadores ou potenciais parceiros, afectando as suas chances de sobrevivência.

Superbandos: Quando golfinhos-rotadores se reúnem em “superbandos”, às vezes chegando a milhares de indivíduos, eles conseguem encurralar pequenos peixes e lulas em cardumes compactos, empurrando-os para a superfície, onde ficam mais fáceis de capturar. Esses ajuntamentos dizem muito sobre abundância de presas e saúde do oceano; se as presas diminuem, grandes grupos de alimentação assim podem tornar-se menos frequentes.

O que essas imagens podem inspirar no dia a dia

Para muita gente, a experiência mais próxima de um lince ou de um cervo-sika será por meio de fotografias como estas. A distância, porém, não torna a reacção menos relevante. Curadores do Natural History Museum contam com frequência que visitantes saem da exposição perguntando o que, de forma concreta, podem fazer.

Entre opções realistas estão apoiar grupos locais de conservação, escolher turismo mais amigável à natureza ou simplesmente prestar mais atenção à vida selvagem urbana. Fotografar raposas, aves de jardim ou insectos num parque da cidade pode exigir a mesma paciência e curiosidade que a lista final do Escolha do Público - apenas em escala menor.

Há ainda um aspecto ligado à saúde mental. Dedicar tempo com atenção a observar animais, mesmo através de uma lente ou de uma impressão no museu, pode reduzir o stress e apurar a capacidade de observação. Da próxima vez que você vir a imagem de um cervo carregando a cabeça do inimigo ou de um lince atirando a presa ao ar, talvez não sinta apenas choque ou admiração. Pode também perceber um incentivo a olhar com mais cuidado para as criaturas que vivem discretamente ao seu lado todos os dias.


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