1 bilhão de dólares, 200 personagens icônicos e uma pergunta incômoda: quem, de fato, vai ficar mais rico com isso? Um raio-x de um acordo que embaralha as regras da economia criativa - e não necessariamente a favor de quem cria.
Quase ninguém antecipou. Em dezembro passado, a The Walt Disney Company e a OpenAI oficializaram um parceria que as duas empresas chamaram de “histórica”. No centro do entendimento está uma licença de três anos que autoriza usuários do Sora, a ferramenta de geração de vídeo da OpenAI, a produzir curtas-metragens com mais de 200 personagens dos universos Disney, Marvel, Pixar e Star Wars.
E não para por aí. A Disney se comprometeu a investir 1 bilhão de dólares na OpenAI e também passou a figurar entre os principais clientes da companhia ao usar sua API. O ChatGPT está sendo adotado internamente por funcionários do grupo, e o Disney+ também vai exibir uma seleção de vídeos criados por usuários no Sora.
Ainda assim, as duas empresas estabeleceram salvaguardas bem delineadas. “Eles foram muito cuidadosos com as fronteiras da licença”, observa Jérôme Colin, diretor executivo da consultoria fifty-five, em entrevista ao Presse-citron. “São personagens de animação, personagens mascarados; o acordo não envolve, em hipótese alguma, o rosto ou a voz dos atores”, acrescenta. A diferença é decisiva para resguardar tanto a imagem da marca quanto os direitos de intérpretes humanos. Mas isso basta?
Como o streaming musical?
Num primeiro olhar, o tamanho financeiro do contrato chama a atenção. Afinal, a Disney abre acesso a alguns de seus personagens mais emblemáticos sem receber royalties diretos pela licença. “Claro, a Disney vai ganhar popularidade porque seus personagens vão ser mais usados”, admite o especialista, mas ressalta que se trata de uma aposta enorme - um reflexo do impacto gigantesco da expansão da inteligência artificial (IA) generativa.
“Os gigantes históricos sentem o chão sumir sob os pés. A resposta? Investir em quem os ameaça, esperando recuperar o investimento no dia em que essas plataformas se tornarem rentáveis”, explica o analista. Ele, inclusive, compara esse movimento ao que ocorreu quando o streaming musical ganhou força: “É mais próximo do que aconteceu com as gravadoras, que investiram ou compraram participações nos grandes do streaming”. Uma decisão que, nas palavras dele, é “relativamente natural, mas um pouco forçada também”.
E onde entram os criadores nessa história? Essa é, sem dúvida, a pergunta que gera atrito - e é aqui que a analogia com a música encontra seu limite. Se artistas já reclamam dos ganhos reduzidos no Spotify, a posição de quem cria dentro do universo Disney pode ser ainda mais frágil. “É quase pior”, afirma Jérôme Colin. “No Spotify, um artista recebe pouco, mas recebe alguma coisa. *Na Disney, é diferente: o copyright pertence ao grupo*. Depois que a animação é criada, toda a vida dos personagens escapa das mãos de seus criadores”, continua.
Um risco claro para os criadores
Para a categoria, o risco aparece em duas frentes. De um lado, a concorrência direta entre produções oficiais da Disney e conteúdos gerados por usuários via Sora. De outro, uma queda quase automática na quantidade de encomendas para profissionais. No cinema e na animação, “pode haver menos trabalho”, prevê.
Ele faz uma ressalva, porém, lembrando que construir uma franquia forte exige muito trabalho criativo humano antes de qualquer automação. “Para a Disney, não é totalmente óbvio como arbitrar isso”, avalia. Nesse cenário, criadores podem acabar empurrados para um papel diferente: o de arquitetos de universos, em vez de produtores em série de conteúdo. Só que a engrenagem financeira continua dura. “No dia em que o Spotify pagar dividendos, quem vai recebê-los são as gravadoras, não os criadores”, recorda. A lógica, portanto, tende a ser a mesma.
Um “mundo que muda”
Passada a incerteza, algo é inequívoco: o acordo funciona como um sinal forte - possivelmente um dos mais relevantes dos últimos anos para a indústria criativa. “É um primeiro movimento bastante único e enorme”, conclui Jérôme Colin. “O impacto talvez não seja gigantesco de imediato, mas, do ponto de vista midiático e emocional, isso é muito importante”, resume.
Isso pode inspirar outras empresas a seguirem o mesmo caminho. Mas tudo depende do que a OpenAI pretende, de fato, fazer com a parceria. A startup de Sam Altman, que anunciou recentemente a chegada de publicidade dentro do seu chatbot, busca com urgência monetizar seus produtos. Nesse contexto, uma plataforma de conteúdos gerados pelos próprios usuários faria total sentido. “Começar com a Disney não é nada mal”, destaca o analista.
Enquanto não fica claro para onde essa colaboração vai apontar, ela já se impõe como “a confissão, por parte de um gigante histórico, de um mundo que muda”, finaliza.
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