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O aumento das temperaturas está enfraquecendo as redes alimentares dos rios.

Pesquisadora coleta amostras de água em riacho, com laptop aberto ao lado, em ambiente natural sereno.

Riachos em aquecimento podem estar mudando muito mais do que a temperatura da água. Um novo estudo indica que, à medida que os rios esquentam, eles ficam menos capazes de reter o carbono que sustenta a vida aquática.

Com isso, uma parcela maior desse carbono acaba escapando para a atmosfera na forma de dióxido de carbono (CO2), enquanto uma parte menor permanece no ambiente para alimentar os insetos e micróbios que dão suporte ao restante da teia alimentar.

A pesquisa, conduzida por cientistas da Northern Arizona University (NAU), investigou o que acontece quando a serapilheira (folhas e outros detritos vegetais) se decompõe em água mais quente.

O grupo observou que temperaturas elevadas, de fato, aceleram a decomposição - porém não de um jeito positivo. Em vez de converter mais desse material em tecido vivo, o sistema perde uma fração maior como CO2.

Onde tudo começa

Em muitos córregos de áreas florestadas, a história da vida tem início com algo que passa facilmente despercebido.

Folhas, galhos finos e pedaços de casca caem na água a partir das árvores ao redor. À primeira vista, parecem apenas detritos comuns, mas, na prática, são a matéria-prima que ajuda a alimentar todo o ecossistema.

Micróbios iniciam a decomposição desse material; insetos aquáticos consomem as folhas ou se alimentam desses micróbios; e, em seguida, peixes e outros animais se alimentam dos insetos.

Por isso, quando pesquisadores falam em carbono em um riacho, estão, na verdade, falando de energia. A questão central é quanto do carbono presente nas folhas permanece no sistema por tempo suficiente para nutrir a vida.

Uma decomposição mais rápida poderia soar como sinal de um riacho ativo e saudável, mas, neste caso, os cientistas verificaram que a velocidade trazia um custo oculto. O riacho continuava processando carbono, só que se tornava pior em mantê-lo “preso” no ecossistema.

O aquecimento não apenas acelera processos biológicos nos riachos – ele altera a eficiência com que os organismos transformam carbono em biomassa, com uma parcela maior sendo perdida como CO2”, afirmou o autor principal do estudo, Michael Zampini, pesquisador de pós-doutorado da NAU.

Experimentos com minirriachos da NAU

Para examinar essa mudança com mais precisão, os pesquisadores montaram, em ambiente interno, o que equivalia a um pequeno sistema fluvial.

Dentro de uma estufa no The Arboretum at Flagstaff, eles criaram 48 câmaras de minirriachos com água corrente.

Usaram água de lagoa e mantiveram a iluminação e a química o mais próximas possível das condições naturais, enquanto ajustavam a temperatura para reproduzir uma faixa de cenários típicos de riachos ao longo de dois anos.

Esse sistema nos permitiu manipular a temperatura mantendo todo o resto o mais próximo possível de um riacho real, o que é fundamental para entender como esses processos realmente se desenrolam na natureza”, explicou Zampini.

No mundo real, córregos sofrem a influência simultânea de muitos fatores - de chuvas a entradas de nutrientes e mudanças sazonais. Na estufa, a equipe pôde isolar o efeito do aquecimento e investigar o que ele estava fazendo, de fato, com o fluxo de carbono.

Os pesquisadores trabalharam com serapilheira, que é a principal fonte de energia em muitos riachos florestados, e marcaram esse material com uma forma rara de carbono. Assim, foi possível rastrear o destino do carbono depois que as folhas entravam no sistema.

Eles avaliaram quanto carbono permanecia em biomassa, quanto era incorporado por micróbios e por larvas de tricópteros, e quanto escapava para a água e para o ar como dióxido de carbono. Isso permitiu medir não só a decomposição, mas também a eficiência do processo.

Mais rápido, porém menos eficiente na retenção de carbono

À medida que a água ficava mais quente, a serapilheira se decompunha mais rapidamente. Micróbios e insetos aquáticos processavam o material em um ritmo maior, o que condiz com a noção geral de que a atividade biológica aumenta em condições mais quentes.

Mas o resultado mais revelador apareceu depois: uma parcela maior do carbono era liberada como CO2, em vez de ser transformada em tecido vivo.

Em outras palavras, o riacho consumia sua matéria-prima mais depressa, mas armazenava menos desse carbono nos organismos que formam a base da teia alimentar. Ou seja, mais atividade não se convertia em mais crescimento.

As larvas de tricópteros evidenciaram isso com especial clareza. Em temperaturas baixas, elas ficavam relativamente limitadas; já em temperaturas moderadas, pareciam apresentar melhor desempenho, convertendo alimento em biomassa de modo mais eficiente.

Mesmo quando o consumo aumenta, o sistema se torna menos eficiente – mais carbono vai para a respiração e menos para a construção da teia alimentar”, disse Jane Marks, professora da NAU.

Esse tipo de mudança pode passar despercebido se a observação se limitar a verificar se as folhas “somem”. Na aparência, o riacho continua ativo; por baixo da superfície, porém, ele se torna menos produtivo.

O que os rios podem perder

Isso tem grande importância em riachos reais, especialmente no sudoeste dos EUA, onde a serapilheira é uma fonte crucial de energia para insetos aquáticos.

Se micróbios e insetos retêm menos carbono em seus corpos, então menos energia fica disponível para subir pelos níveis da teia alimentar.

Quando menos carbono é retido na biomassa, há menos energia disponível para sustentar a vida aquática, o que pode se propagar pela teia alimentar e, por fim, afetar as pescarias, a qualidade da água e a estabilidade do ecossistema da qual as pessoas dependem”, concluiu Marks.

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