A política, as concessionárias de energia e os proprietários de imóveis vêm apostando pesado na energia fotovoltaica. Ao mesmo tempo, cresce o receio de que os painéis solares ocupem áreas preciosas e cubram paisagens inteiras. Dois novos estudos de uma equipe de pesquisa da Universidade McGill trazem respostas surpreendentemente objetivas - e mostram como ampliar a geração solar sem perder de vista a limitação de espaço.
Energia solar no caminho para o primeiro lugar
A energia solar é vista como uma tecnologia central da transição energética. De acordo com análises recentes, a fotovoltaica pode se tornar, já antes de 2030, a principal fonte renovável do planeta. A expansão segue em ritmo acelerado - na Europa, na América do Norte e na Ásia. Ainda assim, uma dúvida essencial permaneceu por muito tempo: qual é, de fato, o custo em área dessa expansão?
É justamente nessa questão que atua a equipe liderada pela engenheira Sarah Marie Jordaan, da Universidade McGill. Em dois trabalhos extensos, o laboratório investigou quanta terra usinas solares e sistemas em telhados exigem - e quais escolhas técnicas e de localização reduzem essa demanda territorial.
As pesquisadoras e os pesquisadores mostram que a área global necessária para a energia solar até a neutralidade climática é, de forma inesperada, pequena - desde que o planejamento seja bem feito.
Energia solar fotovoltaica, IA e uso do solo no oeste dos EUA: quanto espaço ocupa uma usina solar?
No primeiro estudo, as pesquisadoras e os pesquisadores examinaram grandes centrais solares instaladas no oeste dos Estados Unidos. Para isso, recorreram a métodos avançados de inteligência artificial:
- Análise de imagens aéreas de alta resolução
- Visão computacional para identificar automaticamente os campos de módulos
- Algoritmos de aprendizagem profunda para medir com precisão a área total dos projetos
Com isso, foi possível mensurar de forma sistemática 719 projetos fotovoltaicos. O resultado foi a criação de um indicador único e reproduzível para a área utilizada por cada empreendimento. Assim, o setor passa a ter, pela primeira vez, uma base sólida para comparar com clareza a eficiência territorial de diferentes instalações.
A localização e a tecnologia fazem diferença
A análise revela contrastes marcantes entre os projetos. Três fatores se destacam:
- Irradiação solar: em regiões com muito sol, a mesma área de módulos gera mais eletricidade. Com isso, a área necessária por quilowatt-hora produzido diminui.
- Densidade da instalação: usinas solares projetadas de maneira compacta aproveitam muito melhor o terreno do que sistemas mais espalhados.
- Configuração técnica: inclinação dos módulos, distância entre fileiras e sistemas de rastreamento influenciam a área exigida por megawatt de potência máxima.
Com esses dados, torna-se mais fácil ajustar licenças, programas de incentivo e regras de planejamento. Prefeituras, por exemplo, podem estabelecer valores mínimos de eficiência territorial ou favorecer modelos construtivos mais compactos.
Análise mundial: telhado ou solo - em que caso vale mais a pena?
O segundo estudo amplia o olhar de uma região para a escala global. Para isso, a equipe utilizou imagens de satélite de quase 69.000 instalações solares em 65 países. O objetivo era responder a duas perguntas:
- Como varia a necessidade de área entre sistemas em telhados e parques de solo?
- Como se comportam as faixas de custo dessas duas opções em diferentes regiões?
O resultado é claro: a fotovoltaica em telhados oferece um enorme potencial de economia de espaço. Cada quilowatt-hora gerado no telhado praticamente não exige nova área no solo, já que aproveita construções que já existem.
Sistemas em telhados podem aliviar boa parte do conflito por uso da terra - especialmente em regiões densamente povoadas, onde a pressão sobre áreas agrícolas e naturais é alta.
Os custos variam bastante de uma região para outra
A análise econômica também chama atenção. A comparação de custos mostra que a diferença de preço entre a fotovoltaica em telhados e as instalações em solo muda muito ao redor do mundo. Em alguns países, as usinas em campo aberto são bem mais baratas; em outros, os valores se aproximam ou até passam a favorecer os telhados.
Para estratégias de política energética, isso significa que um simples “telhado em vez de terreno” - ou o contrário - não funciona como regra universal. Cada país, e em alguns casos cada região, precisa de uma combinação própria, alinhada a:
- Disponibilidade de telhados adequados
- Concorrência por terra com agricultura e proteção ambiental
- Custos de instalação e nível salarial
- Estrutura da rede elétrica e proximidade dos centros de consumo
A energia solar realmente “fecha” área demais?
Um dos pontos politicamente mais sensíveis da análise é este: em escala global, o uso da terra para energia solar até a neutralidade climática continua baixo. Mesmo com forte crescimento da capacidade fotovoltaica, as instalações solares ocupam apenas uma pequena parcela da superfície terrestre do planeta.
Uma comparação ajuda a dimensionar: áreas agrícolas, cidades, vias de transporte e empreendimentos industriais consomem muito mais espaço do que a energia solar precisaria, mesmo em um cenário climático ambicioso. As pesquisadoras e os pesquisadores destacam dois níveis de impacto:
| Nível | Avaliação do impacto territorial |
|---|---|
| Local | Os parques solares podem alterar fortemente ecossistemas no entorno, comprometer linhas de visão e provocar disputas pelo uso da terra. |
| Global | A área total necessária permanece muito pequena em relação a outros usos e, no conjunto, é considerada administrável. |
Esses dados contrariam a imagem frequentemente associada a uma “desertificação solar” que tomaria conta de tudo. Os desafios reais, na maior parte das vezes, não estão no tamanho absoluto da área, mas no planejamento local: onde exatamente a instalação será construída? Que uso alternativo deixará de existir? Quais atributos naturais ou paisagísticos serão afetados?
Qual é o papel da política e das estratégias regionais?
A partir dos resultados, surgem caminhos claros de ação para governos e prefeituras. Jordaan e sua equipe ressaltam que diretrizes políticas bem desenhadas podem reduzir de forma significativa a pressão sobre o território. Entre elas estão, por exemplo:
- Incentivo à fotovoltaica em telhados e fachadas em áreas urbanas e distritos comerciais
- Preferência por superfícies já impermeabilizadas, como estacionamentos, barreiras acústicas e antigos aterros
- Critérios de localização que protejam áreas agrícolas de alta produtividade e biomas sensíveis
- Regras para construções mais compactas em grandes parques solares
Ao mesmo tempo, os dados mostram que, em algumas regiões, o uso da terra simplesmente não é um gargalo. Nesses casos, vale manter uma visão aberta para usinas solares de baixo custo, desde que sejam bem integradas à paisagem e permitam ganhos ecológicos, como o uso de vegetação extensiva.
O que isso significa para proprietários de imóveis e municípios no espaço de língua portuguesa?
Para o Brasil, Portugal e outros contextos urbanos e rurais, a pesquisa aponta um ponto central: áreas de telhado sem uso viram uma alavanca decisiva. Especialmente em locais densamente ocupados e sob forte pressão por espaço - como grandes centros urbanos e regiões agrícolas férteis -, cada quilowatt-hora adicional gerado no telhado alivia a pressão sobre pastagens e lavouras.
Exemplos práticos aparecem com facilidade:
- Mais obrigação de instalar solar ou incentivos claros para obras novas e reformas
- Programas padronizados para telhados de comércios e supermercados
- Ações municipais de energia solar para escolas, ginásios e prédios administrativos
- Projetos de energia cidadã que alugam coberturas em vez de ocupar novas áreas
Quando ainda assim houver construção de fotovoltaica em solo, os municípios podem apostar no uso duplo do espaço: por exemplo, em sistemas agrofotovoltaicos, nos quais os módulos ficam sobre culturas agrícolas, ou em cercas solares ao longo de corredores de transporte. Assim, produz-se eletricidade sem que a terra produtiva seja completamente perdida.
Termos, oportunidades e riscos em foco
Na discussão, aparece com frequência o termo “eficiência territorial”. Ele se refere à quantidade de eletricidade gerada por uma instalação em cada metro quadrado ou hectare. Quanto maior esse indicador, menor a pressão sobre outros usos da terra. Ele pode ser influenciado pela tecnologia, pelo planejamento e pela escolha do local - e deveria ter um peso muito maior nos processos de licenciamento.
Ao mesmo tempo, os riscos continuam presentes: projetos mal planejados podem destruir habitats, intensificar conflitos sociais ou colocar em dúvida a identidade local. Por outro lado, a energia solar oferece novas fontes de renda e alternativas de planejamento para municípios, agricultores e iniciativas comunitárias, especialmente em regiões ensolaradas e com menor dinamismo econômico.
As novas pesquisas, portanto, não fornecem um argumento contra perguntas críticas sobre a escolha de local, mas sim um conjunto de ferramentas para tornar o debate mais objetivo. Em vez de rejeição generalizada ou entusiasmo cego, o foco passa a ser uma avaliação pragmática: que tipo de solução solar vale mais a pena - do ponto de vista técnico, econômico e com o menor impacto possível sobre a área?
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