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Cientistas veem esperança contra cegueira relacionada à idade com o uso do remédio para diabetes Metformina.

Idosa passando por exame ocular com oftalmologista que aponta imagem do olho em tela de computador.

No Reino Unido, um estudo recente indica que um medicamento muito usado no tratamento do diabetes tipo 2 pode estar associado a uma redução do risco de uma forma específica de degeneração macular relacionada à idade. Em países industrializados, essa doença é considerada a causa mais comum de perda visual grave na velhice.

Degeneração macular relacionada à idade (AMD/DMRI): o que é e por que importa

A degeneração macular relacionada à idade - conhecida pela sigla AMD (em francês, DMLA) - afeta a mácula, uma área minúscula no centro da retina que permite ler com nitidez, dirigir e reconhecer rostos. Quando essa região é danificada, a pessoa costuma ficar com uma distorção ou uma “mancha” escura no meio do campo de visão.

Os médicos costumam separar a condição em duas formas principais:

  • AMD úmida (exsudativa): vasos sanguíneos anormais se formam sob a retina. Como são frágeis, podem vazar líquido e sangue; a mácula incha e pode haver hemorragia. A visão frequentemente piora em questão de semanas ou meses. Nesses casos, existem injeções anti-VEGF aplicadas diretamente no olho para desacelerar a progressão.
  • AMD seca (forma atrófica): ocorre morte gradual das células sensíveis à luz e do epitélio pigmentar. Surgem “falhas” na mácula, visíveis no exame da retina. Em geral, é um processo lento, que costuma se estender por cinco a dez anos. Na Europa, praticamente não há um padrão aprovado que realmente consiga interromper o avanço da doença.

Em países com maior renda, estágios intermediários e avançados aparecem em 10 a 15% das pessoas acima de 65 anos. Para muitos, o diagnóstico significa, com o tempo, perder a capacidade de leitura, deixar de dirigir e enfrentar limitações importantes no dia a dia.

Metformina: remédio clássico do diabetes tipo 2 com possíveis efeitos além da glicemia

A metformina está entre os medicamentos mais prescritos no mundo para diabetes tipo 2. Em comprimidos, ela reduz a glicose ao frear a produção de açúcar pelo fígado e ao aumentar a sensibilidade do organismo à insulina. Milhões de pessoas a utilizam há décadas.

Nos últimos anos, porém, vem crescendo a ideia de que a metformina pode atuar além do controle glicêmico. Diversos trabalhos atribuem ao fármaco características que, de modo geral, são agrupadas sob o rótulo de “efeito antiaging”, como:

  • ação antioxidante, ajudando a proteger contra radicais livres
  • redução de inflamação em nível celular
  • inibição de formação anormal de novos vasos sanguíneos
  • estímulo a “programas de limpeza” celular (autofagia)

Esses mecanismos também estão ligados, segundo o conhecimento atual, ao surgimento e ao avanço da AMD. Estudos observacionais de grande porte e meta-análises já haviam sugerido que pessoas em uso de metformina apresentam menor chance de desenvolver AMD. A pesquisa mais recente, conduzida em Liverpool, avançou ao acompanhar fotos do fundo de olho ao longo de vários anos.

Estudo da Universidade de Liverpool: acompanhamento de retina por 5 anos

Pesquisadores da Universidade de Liverpool analisaram dados de 2.089 pessoas com mais de 50 anos, todas com diabetes tipo 2, que participavam de um programa regional de rastreamento de doenças retinianas relacionadas ao diabetes. Os participantes realizavam fotografias do fundo de olho periodicamente.

  • Cerca de 40% dos participantes usavam metformina.
  • Aproximadamente 60% eram tratados sem metformina.
  • Após cinco anos, novas imagens da retina foram feitas e comparadas com as fotos iniciais.

Cada imagem foi classificada com base em uma escala padronizada: sem AMD, AMD inicial, intermediária ou tardia. Em seguida, as duas populações foram comparadas, com ajuste para fatores que poderiam distorcer o resultado, como idade, sexo, tempo de diabetes, controle de glicemia e presença de alterações retinianas diabéticas associadas.

"Após cinco anos, diabéticos em terapia com metformina tiveram um risco 37 por cento menor de desenvolver AMD intermediária."

A diferença apareceu de forma nítida na análise estatística. Já para alterações muito precoces e para a progressão até estágios tardios e graves, o estudo não chegou a um resultado conclusivo - possivelmente porque esses eventos foram relativamente raros durante o período observado.

AMD intermediária na prática: o que esse estágio significa?

A fase intermediária costuma ser mais do que um achado incidental, mas ainda não é um “pronto-socorro oftalmológico”. Em muitos casos, a visão permanece razoavelmente preservada; pequenas distorções ou sombras acinzentadas podem passar despercebidas. Ao mesmo tempo, aumenta a chance de, nos anos seguintes, evoluir para uma forma tardia seca ou para a forma úmida.

Por isso, um medicamento capaz de desacelerar especificamente essa etapa intermediária poderia evitar sofrimento no longo prazo - mesmo que apenas adiasse por alguns anos a transição para perda visual severa. É justamente nesse ponto que se concentra a expectativa em torno da metformina.

Por que a metformina não deve ser usada “por conta” para proteger os olhos

Apesar de os números chamarem atenção, os autores ressaltam que se trata de um estudo observacional. Ou seja: ninguém recebeu metformina por sorteio; o uso ocorreu conforme o perfil clínico. Assim, pessoas com comorbidades diferentes, hábitos distintos e decisões médicas variadas podem ter sido distribuídas de modo desigual entre os grupos.

"O estudo mostra uma associação, mas ainda não prova um mecanismo de proteção causal da metformina contra AMD."

Por isso, especialistas defendem estudos controlados e randomizados. Neles, a metformina seria oferecida de forma planejada a parte dos pacientes com AMD, enquanto outro grupo receberia outro tratamento ou placebo. Só então seria possível saber, com mais segurança, se o comprimido protege a visão - e em quais perfis de paciente isso faria sentido.

Alerta sobre automedicação com metformina

A metformina exige receita médica por motivos importantes. Ela pode causar desconfortos gastrointestinais, aumentar efeitos adversos em algumas doenças renais e não é compatível com toda combinação de medicamentos. Para quem não tem diabetes, o uso sem acompanhamento pode trazer mais riscos do que benefícios.

Por isso, oftalmologistas e endocrinologistas desaconselham fortemente buscar metformina com a ideia de “proteger os olhos”. Em vez disso, pessoas com risco de AMD devem agir sobre fatores já conhecidos: não fumar, controlar a pressão arterial, manter alimentação equilibrada, proteger os olhos do sol e fazer avaliações periódicas da retina.

Por que pessoas com diabetes podem se beneficiar mais rapidamente dessa linha de pesquisa

O diabetes tipo 2 é, por si só, um fator de risco para doenças retinianas, especialmente a retinopatia diabética. Esse dano vascular também pode levar à perda de visão. Por isso, muitos pacientes já realizam, de rotina, fotografias ou exames anuais do fundo de olho.

Se a indicação observada em Liverpool se confirmar, surge uma possível “dupla função”:

  • A metformina reduz a glicemia e, com isso, diminui o risco vascular global.
  • Ao mesmo tempo, poderia desacelerar a evolução para AMD mais avançada - atenuando uma segunda doença ocular, independente da retinopatia diabética.

Para quem tem diabetes e precisa usar medicação por longos períodos, isso poderia representar um ganho relevante. Já para idosos sem diabetes, seriam necessários estudos específicos para ponderar com clareza riscos e benefícios.

O que fazer hoje para reduzir o risco de AMD

Até que ensaios clínicos robustos sejam concluídos, a metformina continua sendo um medicamento para diabetes - nada além disso. Ainda assim, quem tem risco aumentado para AMD pode adotar medidas práticas para proteger a visão:

  • Consulta regular ao oftalmologista: pessoas acima de 60 anos ou com casos na família devem avaliar o fundo de olho uma vez por ano.
  • Parar de fumar: o tabagismo está entre os fatores de risco modificáveis mais fortes.
  • Acompanhar pressão, glicemia e gorduras no sangue: um metabolismo bem controlado preserva os vasos da retina.
  • Alimentação rica em frutas, verduras e peixe: folhas verde-escuras e peixes marinhos gordurosos fornecem carotenoides e ômega-3, nutrientes associados ao suporte da mácula.
  • Óculos escuros com filtro UV: exposição intensa à radiação UV pode danificar estruturas retinianas.

Como interpretar o estudo e quais perguntas ainda ficam em aberto

A análise de Liverpool se baseia em um programa real de atendimento, refletindo a rotina de pacientes - e isso dá relevância aos achados, por não virem apenas de condições altamente controladas. Ainda assim, persistem dúvidas: até que ponto diferenças de estilo de vida pesam nos resultados? Há subgrupos que se beneficiam mais, por exemplo, conforme predisposição genética?

Também chama atenção a possibilidade de medicamentos mais novos e potentes para reduzir glicose, como agonistas de GLP-1 ou inibidores de SGLT2, terem efeitos semelhantes - ou até mais fortes - sobre o desenvolvimento de AMD. Por enquanto, existem poucos dados sobre isso.

O que significa “estresse oxidativo” e como ele se relaciona à mácula

Várias hipóteses sobre como a metformina poderia ajudar envolvem biologia celular. “Estresse oxidativo”, por exemplo, descreve o desequilíbrio em que moléculas reativas de oxigênio (radicais livres) passam a agredir estruturas celulares. Na retina, que é altamente sensível à luz, a produção desses compostos pode ser elevada. Se o organismo não consegue neutralizá-los bem, o envelhecimento tecidual tende a acelerar.

Substâncias com ação antioxidante - seja na dieta, seja em medicamentos - podem limitar esse desequilíbrio. A metformina provavelmente interfere em mais de um ponto dessa cascata e, assim, reduz processos nocivos nas células da mácula. Essa interação ainda não está totalmente esclarecida e segue entre os temas mais discutidos na pesquisa em oftalmologia.

Para quem convive com o risco, a mensagem é realista, mas animadora: a AMD vem ganhando cada vez mais prioridade na ciência. O simples fato de um remédio antigo para diabetes ser considerado um candidato a novas estratégias contra a perda visual relacionada à idade mostra como a perspectiva sobre fármacos conhecidos está mudando - e como ainda pode haver potencial não explorado neles.

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