Pular para o conteúdo

Lockheed Martin destaca o papel central do Canadá no programa F-35, apesar da crescente pressão dos EUA.

Técnico militar inspeciona equipamento de caça F-35 em hangar com mapa, capacetes e laptop ao lado.

À medida que Washington endurece o discurso e Ottawa avalia caminhos possíveis, a Lockheed Martin corre para reforçar a ideia de que o Canadá não é apenas um comprador do F-35 - e sim um dos pilares que sustentam todo o programa.

Canadá apresentado como parceiro central do F-35, não como cliente secundário

Em 16 de janeiro de 2026, a Lockheed Martin divulgou novos números com o objetivo de amarrar o Canadá ainda mais ao ecossistema do F-35 Lightning II.

A empresa estima mais de C$15.5 billion em atividade industrial para o Canadá até 2058, vinculada ao plano de Ottawa de adquirir 88 caças F‑35A e a uma rede ampla de mais de 110 fornecedores domésticos.

A Lockheed Martin destaca que cada F‑35 em operação hoje leva peças fabricadas no Canadá, colocando o país como parte da espinha dorsal do programa - e não como um participante marginal.

Segundo a companhia, cada aeronave incorpora mais de C$3.2 million em componentes canadenses vindos de seis províncias. Esse conteúdo inclui desde seções da estrutura até metalurgia usinada de alta precisão e inserções de aviônicos, integradas durante a montagem final em Fort Worth, Texas.

Para as empresas canadenses, isso já se traduz em contratos concretos: até agora, foram concedidos acordos que somam mais de US$3.3 billion, abrangendo conjuntos estruturais, elementos de asa e fuselagem, dutos ligados à propulsão e trabalho de sustentação de longo prazo.

Por que essa ofensiva agora? Pressão crescente de Washington sobre Ottawa e o F-35

A escolha do momento para essa mensagem não é por acaso. O argumento económico surge num período em que a retórica política dos Estados Unidos ficou mais dura e mais transacional.

Donald Trump acusou publicamente o Canadá de se apoiar num acesso privilegiado à base de defesa e industrial dos EUA enquanto adota políticas comerciais que ele classifica como injustas - especialmente em aeroespacial, alumínio e manufatura avançada.

Trump ligou diretamente a cooperação em defesa, incluindo apoio ao F‑35, ao alinhamento do Canadá com as prioridades comerciais e estratégicas dos Estados Unidos.

Ele alertou que aliados vistos como pouco cooperativos poderiam enfrentar tarifas, restrições de acesso industrial ou retaliação política. Nesse cenário, o F‑35 deixa de ser percebido em Ottawa como uma compra exclusivamente militar e passa a ser visto como um possível ponto de pressão numa relação de poder mais ampla com Washington.

Quando autoridades canadenses sinalizaram que poderiam reavaliar alternativas como o Saab Gripen, da Suécia, Trump aumentou ainda mais o tom, advertindo sobre “consequências graves” caso Ottawa desistisse do jato construído nos EUA.

Uma aposta de décadas no F-35

O vínculo do Canadá com o F‑35 vem de quase três décadas atrás, muito antes do atual agravamento.

  • 1997 – O Canadá entra na fase inicial de conceito do Joint Strike Fighter.
  • 2002 – Ottawa adere como parceiro de Nível 3, financiando o desenvolvimento.
  • 2000s–2010s – Empresas canadenses disputam contratos à medida que o caça amadurece.
  • 2022 – O Canadá escolhe formalmente o F‑35A para substituir a frota de CF‑18.
  • 2026 – Entrega prevista dos primeiros 16 F‑35 canadenses.

O estatuto de Nível 3 deu à indústria canadense o direito de concorrer por trabalho em toda a frota global, mas sem as garantias tradicionais de compensações industriais (offsets) comuns em acordos de caças europeus. Na prática, as empresas precisaram vencer pela qualidade num ambiente altamente competitivo.

Ao longo do tempo, Ottawa adiou repetidas vezes uma decisão final de compra, enquanto analisava alternativas como o Boeing F/A‑18E/F Super Hornet, Dassault Rafale, Eurofighter Typhoon e Saab Gripen. A seleção do F‑35A em 2022, cobrindo 88 aeronaves, representou a maior aquisição de caças da história canadense em número de unidades.

Presença industrial do F‑35 no Canadá: da Nova Escócia a Manitoba

Agora, a Lockheed Martin coloca o conteúdo canadense no centro da narrativa para enquadrar o F‑35 como uma história de empregos e tecnologia - e não apenas como uma rubrica de defesa.

Província Exemplos de contribuições para o F‑35
Nova Escócia Painéis e peças estruturais de empresas como a Stelia Aerospace em Lunenburg
Manitoba Componentes estruturais principais fabricados pela Magellan Aerospace em Winnipeg
Ontário & Quebec Inserções de aviônicos, usinagem de precisão, integração de sistemas e testes
Províncias do oeste Componentes usinados, dutos e ferramental de suporte para montagem e sustentação

Para muitas dessas empresas, a carga de trabalho não depende apenas dos 88 jatos do próprio Canadá. Enquanto a frota global de F‑35 continuar a crescer, fornecedores canadenses podem concorrer por produção, sobressalentes e futuras modernizações de aeronaves operadas por dezenas de forças aéreas aliadas.

A mensagem da Lockheed para Ottawa e para o eleitorado canadense é direta: o F‑35 é apresentado como um canal industrial de longo prazo, e não uma compra pontual.

Um salto geracional: do CF‑18 ao F‑35

No plano operacional, autoridades canadenses descrevem a passagem do envelhecido CF‑18 Hornet para o F‑35 como a entrada no chamado combate aéreo de “quinta geração”.

A estrutura de baixa observabilidade do F‑35 e os revestimentos absorventes de radar foram concebidos para reduzir a deteção, permitindo que o caça opere dentro de espaços aéreos fortemente defendidos contra sistemas modernos de mísseis superfície-ar.

Sensores avançados e fusão de dados

A aeronave dispõe de radar de varredura eletrónica ativa, como o AN/APG‑81 e o futuro AN/APG‑85. Esses radares executam deteção de alvos a longa distância, mapeamento terrestre de alta resolução e tarefas de ataque eletrónico num único sistema estreitamente integrado.

Além disso, o AN/AAQ‑37 Distributed Aperture System envolve o jato com sensores infravermelhos. Ele consegue identificar mísseis em aproximação, rastrear aeronaves próximas e enviar imagens diretamente para o capacete do piloto, oferecendo visão de 360 graus.

Em vez de alternar entre telas e pods separados, pilotos do F‑35 recebem uma imagem unificada do espaço de batalha, gerada automaticamente pelos computadores da aeronave.

Isso contrasta de forma clara com o CF‑18, que depende de uma combinação de radar separado, pods de pontaria e sistemas de comunicação distintos, deixando para a tripulação uma parcela maior do trabalho de interpretação.

Combate em rede e interoperabilidade com aliados

Espera-se que os F‑35 canadenses atuem como centros aéreos de sensores dentro das redes mais amplas da NATO e do NORAD. Os links de dados seguros do caça permitem partilhar, em tempo real, informações de alvos e dados de ameaças com jatos aliados, navios de superfície e unidades terrestres.

O jato transporta armamento internamente em configurações mais discretas, pode acelerar a velocidades supersónicas e tem alcance para patrulhas de longa distância sobre o vasto espaço aéreo do Canadá. O projeto foi pensado para cumprir missões ar-ar, ataque e reconhecimento a partir da mesma plataforma.

Riscos: dependência e vulnerabilidade política

Paralelamente às vantagens operacionais e industriais, autoridades e analistas no Canadá passaram a discutir com mais franqueza as fragilidades embutidas no modelo do F‑35.

O desempenho do jato depende fortemente de software sob controlo dos EUA, arquivos de dados de missão, comunicações seguras e sistemas logísticos. Sustentação, atualizações e suporte técnico profundo ficam ancorados em infraestrutura americana e em decisões de exportação.

Ottawa ganha capacidade de ponta, mas amarra um elemento crítico do seu setor de defesa e aeroespacial ao humor político em Washington.

As declarações de Trump intensificaram essas preocupações. Elas levantam a possibilidade de que administrações futuras dos EUA usem acesso à sustentação, calendários de atualização ou repartição de trabalho industrial como alavanca em disputas não relacionadas, seja em comércio ou política externa.

Alternativas em debate: a questão do Saab Gripen

O Saab Gripen, da Suécia, voltou ao debate no Canadá como símbolo de um caminho diferente. Defensores sustentam que o Gripen permitiria mais controlo doméstico, incluindo maior manutenção local e mais acesso a software, com menor dependência de decisões americanas.

Críticos argumentam que escolher uma aeronave não americana poderia dificultar a interoperabilidade com os Estados Unidos e com parceiros da NATO, sobretudo no Ártico e na defesa aérea da América do Norte, onde operações conjuntas com forças americanas são rotineiras.

Por enquanto, o F‑35 segue como a opção escolhida, mas a discussão em torno do Gripen deixa claro que o tema já não se limita a especificações de desempenho. Passou a ser uma conversa sobre soberania, poder de barganha e tolerância a riscos no longo prazo.

Conceitos-chave que moldam o debate

Alguns termos técnicos e políticos estão no centro dessa discussão:

  • Caça de quinta geração: Aeronave que combina furtividade, sensores avançados, fusão de dados e integração profunda em redes, desenhada para operar contra defesas aéreas sofisticadas.
  • Participação industrial: Parcela de manufatura, manutenção e P&D atribuída a empresas nacionais como resultado de uma aquisição de defesa.
  • Acesso à sustentação: Direitos de longo prazo e capacidade prática de manter, reparar e modernizar equipamentos de alto nível sem restrições ou atrasos impostos por um fornecedor estrangeiro.

As decisões que o Canadá toma agora terão efeitos por décadas. Frotas de caças normalmente permanecem em serviço por 30 a 40 anos. Isso significa que a decisão atual pelo F‑35 definirá o grau de proximidade entre o poder aéreo canadense, a tecnologia e a indústria com os Estados Unidos pelo menos até as décadas de 2050 ou 2060.

Para empresas na Nova Escócia, em Manitoba ou em Ontário que fornecem peças para a cadeia global do F‑35, o programa oferece continuidade e escala. Para formuladores de política em Ottawa, ele também consolida uma aposta de longo prazo numa parceria que, cada vez mais, mistura defesa com negociação económica dura vinda de Washington.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário