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Por que é impossível enviar alguém ao Sol, segundo Michael J. I. Brown

Homem apontando para quadro branco com ilustração do sistema solar em sala com janela e globo terrestre.

Só de imaginar isso já parece, no mínimo, uma ideia sádica - mas a física deixa claro que a experiência desandaria rapidamente.

Por mais extravagante e provocadora que seja, a hipótese ainda vale a atenção pelo lado científico. Foi o astrofísico Michael J. I. Brown, da Universidade Monash, quem publicou um texto bem-humorado no The Conversation para explicar por que esse tipo de fantasia pseudo-punitiva simplesmente não dá para executar.

Mesmo deixando qualquer discussão moral de lado, jamais seria viável lançar alguém “na direção do Sol”. O motivo é que não basta escapar da gravidade da Terra: seria necessário também fazer algo ainda mais difícil - eliminar a velocidade orbital do nosso planeta.

Por que mirar o Sol nunca nos leva ao Sol?

Vamos assumir que fosse possível colocar um criminoso em um foguete e que isso fosse permitido por lei. O primeiro obstáculo é básico: a nave teria de alcançar pelo menos 11 km/s para vencer a gravidade terrestre - um feito que fica restrito aos lançadores mais potentes.

Digamos, então, que a decolagem aconteça sem incidentes, que o veículo seja estabilizado e apontado exatamente para o Sol. Ainda assim, nada ocorreria como o planejado. Em vez de “cair” rumo à nossa estrela, o foguete seguiria uma rota desviada e passaria longe do alvo por cerca de 100 milhões de quilômetros.

Escapar da Terra não basta: a herança da órbita

A razão para esse erro enorme é simples: ao sair da Terra, o foguete leva junto a velocidade orbital do planeta - algo em torno de 30 km/s. Essa velocidade empurra a nave para uma trajetória de órbita ao redor do Sol, em vez de colocá-la em um mergulho direto em direção a ele.

O verdadeiro problema: cancelar 30 km/s

Para realmente se aproximar da estrela, seria preciso anular esses 30 km/s - isto é, “frear” em relação ao Sol até que o foguete deixasse de avançar lateralmente. Na prática, teríamos de acelerar o foguete no sentido contrário ao movimento orbital da Terra, a uma velocidade superior a 30 km/s, o que exigiria uma quantidade de energia absolutamente colossal e fora das nossas capacidades tecnológicas atuais.

Quanto tempo levaria depois de anular a velocidade?

Só depois de cancelar essa velocidade é que, do ponto de vista do Sol, o foguete ficaria quase parado. A partir daí, a gravidade solar poderia puxá-lo diretamente, como uma pedra solta sobre um poço.

Em teoria, a nave levaria cerca de dez semanas para chegar ao Sol, já que ele está a 150 milhões de km da Terra.

O passageiro e o sentido do experimento mental

E o passageiro dessa história? No cenário hipotético descrito por Brown, ele passaria algo como dois meses e meio dentro do foguete - tempo mais do que suficiente, como o autor escreve com sarcasmo, “para que nosso criminoso possa considerar seus pecados antes de uma destruição ardente”.

Ainda em teoria, uma vez anulada a velocidade orbital, o veículo seria “inelutavelmente” atraído pela gravidade solar. Só que, como já dá para perceber, insistir nessa “punição” seria como lutar contra moinhos: as leis físicas que regem a mecânica orbital tornam a operação simplesmente inviável. A ideia de Brown, portanto, funciona sobretudo como um exercício de divulgação científica mais incisivo - e é aí que está seu principal valor: ao raciocinar pelo extremo, às vezes conseguimos enxergar uma realidade que, de outro modo, passaria despercebida.

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