Pesquisadores relatam que algas marinhas podem virar um ingrediente do concreto capaz de substituir parte do cimento e, ao mesmo tempo, armazenar carbono extra conforme o material endurece.
Essa constatação coloca uma cultura costeira comum em um novo papel - com potencial de reduzir a poluição do concreto antes mesmo de a obra ficar pronta.
Pó de algas misturado ao cimento fresco
Nos traços testados, as algas começaram em tanques de um viveiro e terminaram como um pó escuro, distribuído no cimento ainda úmido.
Na Universidade de Miami (UM), o professor de engenharia civil Ali Ghahremaninezhad orientou ajustes que permitiram trocar uma parcela maior de cimento sem perder a promessa central do projeto.
E essa promessa exigia mais do que simplesmente acrescentar algas, porque o material sem tratamento poderia atrapalhar a pega do concreto e a forma como a mistura se consolida.
Com isso, surgiu uma questão mais ampla que o restante do texto precisa responder: se essa receita de menor emissão consegue se comportar como o concreto em que as pessoas já confiam.
De algas a biocarvão (biochar)
Na ilha-barreira de Virginia Key, próxima a Miami, o viveiro da UM cultiva as algas nativas usadas nos experimentos.
Depois da colheita, as algas se transformam em biocarvão (biochar) - um material carbonáceo semelhante ao carvão - quando o calor remove a maior parte dos gases em um ambiente com pouco oxigênio.
A partir desse ponto, o projeto deixa de ser sobre as algas em si e passa a ser, sobretudo, um trabalho de engenharia.
O tratamento é crucial porque a estrutura porosa do biocarvão pode reter água e oferecer mais superfícies para a formação de produtos do cimento.
Cimento e emissões de carbono
A maior parte do impacto climático do concreto vem do cimento: a fabricação desse insumo responde por cerca de 7 a 8 por cento das emissões globais de carbono.
A produção libera carbono tanto pela queima de combustível nos fornos quanto pela decomposição do calcário sob calor intenso.
Cada saco de cimento retirado de uma mistura reduz a poluição antes mesmo de a construção começar a cumprir sua função.
Substituir ainda que só uma fração desse ingrediente faz diferença, porque o concreto é usado em escala tão ampla que pequenas mudanças de formulação se acumulam rapidamente.
Aumentar a fração de substituição no concreto com algas
Testes anteriores com biocarvão no mesmo laboratório já haviam mostrado que a dosagem pode tanto favorecer a autocicatrização de fissuras quanto reduzir a resistência.
Essa tensão ajuda a explicar por que o grupo de Miami está tratando o carvão de algas antes de misturá-lo, em vez de simplesmente aumentar a quantidade adicionada.
Um estudo separado sobre biocarvão de algas observou que uma substituição de 30 por cento do cimento alcançou resistência equivalente após algumas semanas.
Esses resultados não asseguram que o mesmo desfecho ocorra aqui, mas indicam que o carbono derivado de algas pode se comportar como algo além de um resíduo.
Prender o carbono dentro do material
A equipe também recorre à cura com carbono, expondo o concreto recém-moldado a dióxido de carbono concentrado enquanto a mistura endurece.
Esse gás reage com componentes ricos em cálcio e forma minerais estáveis, de modo que o carbono vira parte do sólido em vez de permanecer no ar.
Uma abordagem recente capturou até 45 por cento do dióxido de carbono injetado sem enfraquecer o concreto.
As misturas de Miami buscam combinar essa etapa de armazenamento com menor uso de cimento, enfrentando as emissões por dois lados ao mesmo tempo.
Algas, cimento e a Flórida
A Flórida oferece um campo de prova severo, onde sal, calor, umidade e tempestades castigam o concreto comum.
Qualquer mistura de menor carbono precisa manter resistência, suportar fissuras e não criar caminhos fáceis para a entrada de água e a corrosão.
Essa pressão local explica por que o projeto dá prioridade à durabilidade, e não apenas à redução da pegada de carbono.
Se o material falhar cedo em uma região costeira, o ganho climático se perde em reparos, substituições e mais consumo de cimento.
Prémio e impulso
O projeto recebeu apoio depois que pesquisadores da UM o apresentaram na Correção Climática, em Orlando, em março de 2026.
A bolsa de US$ 25.000 ajudará a comprar equipamentos que dão aos pesquisadores um controle mais rigoroso sobre a produção do biocarvão.
“Olhe para os problemas que estão acontecendo na sua comunidade, cruze disciplinas e pense de forma criativa”, disse Rodriguez.
Essa postura é decisiva aqui porque a solução depende de ciência marinha, engenharia de materiais e construção trabalhando em conjunto.
O que pode ganhar escala
As algas oferecem algo de que fabricantes de concreto precisam com urgência: uma matéria-prima local que não depende de fluxos de resíduos industriais que estão encolhendo.
Quando o material útil é cultivado por perto, o transporte diminui e o abastecimento pode ficar menos amarrado a usinas a carvão ou a siderúrgicas.
“Muitas das soluções que encontramos vieram de coisas que estão bem ao nosso redor”, disse Rodriguez.
Ainda assim, levar esse tipo de mistura para a escala exigirá qualidade repetível, custo baixo e normas em que as construtoras possam confiar.
Limites antes do lançamento
Ainda não foi demonstrado que o concreto com algas consegue sair de cilindros de laboratório para estradas, torres e pontes sem alterações.
Durabilidade de longo prazo, comportamento frente à corrosão, velocidade de cura e custo vão definir se a ideia vira um produto de nicho ou uma prática padrão.
Como as etapas de tratamento aumentam a complexidade, o ganho climático precisa superar a energia e o dinheiro gastos para executá-las.
Essas incógnitas são comuns nesta fase, mas explicam por que fórmulas promissoras de concreto muitas vezes levam anos para se disseminar.
Próximos passos
O projeto de Miami mostra como um único material pode cumprir duas funções: substituir um ingrediente poluente e aprisionar carbono extra.
Mesmo que o concreto com algas não chegue aos canteiros tão cedo, ele já mudou onde engenheiros estão buscando alternativas para um cimento melhor.
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